A retórica dos mísseis em Ormuz
Análise · Clara Verdi Há uma gramática da guerra que precede a declaração formal, feita de atos e não de palavras.
Análise · Clara Verdi
Há uma gramática da guerra que precede a declaração formal, feita de atos e não de palavras. E o que se desenrola há nove dias entre o Irã e os Estados Unidos no Estreito de Ormuz é a conjugação de um verbo antigo: o do controle. A diplomacia, com suas frases longas e condicionais, cedeu lugar à sintaxe brutal dos drones interceptados sobre o Kuwait e das explosões que rasgam a madrugada em Tabriz, em Chabahar, em Konarak. A linguagem agora é outra.
A retórica oficial americana, na voz do Secretário de Estado Marco Rubio, insiste na defesa de uma “via navegável internacional”, enquanto seus caças executam “uma nova onda de ataques” para “prejudicar” a capacidade iraniana de ação. A frase carrega uma contradição que apenas o poder pode sustentar: a de garantir o internacional privatizando a força. A oferta de uma “solução diplomática”, feita no nono dia de bombardeios, soa menos como um convite e mais como os termos de uma rendição ainda não assinada.
A geografia da dependência
Do outro lado do estreito, a Guarda Revolucionária Islâmica responde no único idioma que lhe resta, o da assimetria, atacando bases americanas do Kuwait à Síria. O colapso do frágil cessar-fogo de um mês atrás não foi um acidente, mas o retorno ao estado natural de uma disputa onde a confiança jamais existiu. Quando Teerã informa sobre dois petroleiros em chamas, não importa tanto a autoria imediata quanto o fato de que a imagem — o fogo sobre a água — confirma a premissa de toda a escalada: o fluxo de energia do mundo passa por um corredor estreito, e quem o controla tem o poder de sufocar economias a milhares de quilômetros de distância.
O som das sirenes no Barein, o incêndio na usina de dessalinização kuwaitiana. São os danos colaterais que, na verdade, são o alvo principal. Não se trata de vencer uma batalha em campo aberto, mas de demonstrar que a normalidade — a luz que se acende, a água que corre, o combustível que chega ao porto — é uma condição frágil, revogável a qualquer momento. Em Ormuz, a guerra não é apenas sobre navios e mísseis. É sobre a interrupção da rotina global, um ataque direto à premissa de que o mundo é um lugar previsível.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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Fonte: Agência Brasil