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A residência entre o plantão e a bancada

Análise · Dra. Camila Torres O residente de saúde vive um paradoxo.

A residência entre o plantão e a bancada
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Dra. Camila Torres

O residente de saúde vive um paradoxo. O programa que o forma como especialista exige uma dedicação quase monástica, com cargas horárias que diluem a fronteira entre o hospital e a vida. Ao mesmo tempo, a prática clínica nos corredores do SUS clama por um olhar que vá além do protocolo, uma curiosidade que só a pesquisa formal pode organizar. Até agora, essas duas vocações — a do cuidado e a da ciência — eram legalmente incompatíveis durante a residência. O residente que ousava conciliar um mestrado com os plantões o fazia em uma zona cinzenta, sob o risco de sanções.

A resolução nº 2/2026 da Comissão Nacional de Residência Multiprofissional em Saúde, publicada nesta quarta-feira, traz essa atividade para a luz. Ela autoriza, com regras claras, que residentes participem de pós-graduações e projetos de pesquisa, desde que não haja prejuízo à carga horária obrigatória. A norma estabelece um limite de 240 horas anuais para essas atividades acadêmicas, que precisam ser aprovadas pela comissão local, a Coremu. Não se trata de uma licença irrestrita, mas do reconhecimento formal de que a formação de um profissional de saúde não termina no leito do paciente.

Lembro dos meus anos de residência no Hospital das Clínicas. As perguntas que nasciam na enfermaria ou no pronto-socorro eram o combustível intelectual mais potente que eu conhecia. Por que um tratamento funcionava melhor em um grupo de pacientes do que em outro? Qual o impacto real de uma política de prevenção na comunidade que atendíamos? Essas eram questões de pesquisa, nascidas da observação direta. Mas o caminho para investigá-las era extraoficial, percorrido nas poucas horas de folga, movido a café e teimosia.

A nova regra pode mudar esse cenário. Ao permitir que a pesquisa e a pós-graduação façam parte do percurso formativo, ela legitima o residente como um potencial produtor de conhecimento, e não apenas um executor de práticas consagradas. A medida fortalece a integração entre ensino e serviço, um dos pilares do SUS. O sistema ganha um profissional que aprende a questionar a própria prática de forma sistemática, a buscar evidências e, quem sabe, a gerar novas soluções para os problemas que ele mesmo enfrenta diariamente.

Claro, o diabo mora nos detalhes. A fiscalização sobre o cumprimento da carga horária assistencial será crucial para que a mudança não se torne uma precarização disfarçada da formação. A autonomia das comissões de residência para aprovar ou vetar as atividades externas precisa ser exercida com critério, alinhando os interesses do residente aos objetivos do programa e às necessidades do serviço.

Ainda assim, o passo é significativo. Ele oferece a chance de encurtar a distância entre a bancada do laboratório e o leito do hospital. Quantas boas perguntas, nascidas da exaustão de um plantão de 36 horas, poderão agora se transformar em projetos de mestrado ou doutorado?

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Residência Multiprofissional em Saúde autoriza pesquisa e pós

Fonte: Agência Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.