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A rede, a caneta e o silêncio

Análise · Marcos Tibúrcio O vôlei se joga em dois tempos. Há o tempo do relógio, que mede o saque e a rotação.

A rede, a caneta e o silêncio
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

O vôlei se joga em dois tempos. Há o tempo do relógio, que mede o saque e a rotação. E há o tempo da vida, que mede a carreira de uma atleta. Para Tifanny, oposta do Osasco, a caneta de um burocrata na Confederação Brasileira de Vôlei decidiu que o segundo tempo acabou. Da noite para o dia, a rede que era seu ofício virou muro.

O silêncio que se seguiu à decisão foi quebrado não por um grito de arquibancada, mas por um texto de Instagram. Gabi Guimarães, a capitã da seleção, falou primeiro. Depois veio Rosamaria, dona de duas medalhas olímpicas no peito. Ela não usou o nome de Tifanny. Não precisou. Numa quadra onde todos sabem quem ataca e quem defende, a mensagem foi clara como um bloqueio bem postado.

Rosamaria falou em “direitos respeitados e preservados” e em não retroceder duas casas na luta por cada uma avançada. São palavras de cartilha, talvez. Mas ganham peso de chumbo quando ditas por quem tem a pele em jogo. Uma medalhista olímpica, no auge, não precisa se meter em briga alheia. Poderia cuidar do seu saque, da sua manchete, do seu contrato. Ao escolher falar, ela entra em quadra para uma partida que não vale ponto nem pódio. Vale outra coisa.

O esporte vive de regras. Sem elas, é a anarquia. Mas há uma diferença fundamental entre a regra que organiza o jogo e a que exclui o jogador. A CBV mudou o regulamento e, com um parágrafo, retirou de uma mulher seu direito ao trabalho. Rosamaria chamou a isso de ir “de encontro a essa responsabilidade coletiva”. É uma forma polida de dizer o que se diz na geral, com outras palavras: tiraram o ganha-pão da mulher.

Uma conversa de vestiário

Ela conta que, dias antes, conversava com Gabi sobre “muitas coisas que vêm acontecendo no nosso meio”. É a intimidade do vestiário que vaza para a praça pública. É a consciência de que a quadra não é uma ilha. O que se decide numa sala com ar-condicionado reverbera no suor de quem treina todo dia.

A defesa de Rosamaria não é um tratado sobre biologia ou regulamento. É um gesto. Um lembrete de que, por trás de cada uniforme, existe uma pessoa. E que nenhum troféu vale o silêncio quando a injustiça troca de camisa e entra em quadra.

A CBV ainda não respondeu às suas atletas. O jogo, portanto, segue aberto. E a bola mais pesada não está nas mãos de quem saca, mas no colo de quem dirige.

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Rosamaria defende Tifanny e critica banimento de trans no vôlei

Fonte: ge