A prata que pesa como chumbo no peito
Análise · Marcos Tibúrcio Há um tipo de constância que não se celebra — apenas se lamenta.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há um tipo de constância que não se celebra — apenas se lamenta. A seleção brasileira feminina de vôlei chega a mais uma final de Liga das Nações, a quinta, e o que deveria ser um atestado de excelência soa, para quem acompanha a jornada, como a véspera de um drama conhecido. Domingo, em Macau, do outro lado da rede, estará a Turquia. Mas o adversário mais antigo, mais pesado, veste a camisa amarela: é o fantasma de si mesmo.
Desde 2017, quando levantou o troféu do Grand Prix, o Brasil não sabe o que é o ouro em uma grande competição intercontinental. A seca já dura nove anos. E não foi por falta de oportunidade. A seleção esteve lá. Bateu na trave em quatro finais desta mesma Liga das Nações. Chegou perto em Olimpíadas — prata em Tóquio, bronze em Paris. Beirou a glória em Mundiais. O pódio virou um endereço fixo, mas o degrau mais alto, uma miragem.
Para uma linhagem de atletas acostumada a ser régua e compasso do esporte, a prata e o bronze ganham o gosto amargo do quase. É o que transforma a campanha, sólida e por vezes brilhante como a vitória sobre a Itália na semifinal, em um prólogo de angústia. O Brasil chega à decisão não apenas para jogar contra a Turquia, que já sentiu o gosto desse título em 2023. Chega para jogar contra seu próprio histórico recente, contra a memória das quatro decisões perdidas.
É uma batalha psicológica disfarçada de partida de vôlei. Cada ponto, cada defesa de Rosamaria, cada cortada de Ana Cristina, carregará o peso de uma década. Do outro lado da tela, o brasileiro que acorda cedo no domingo não assistirá apenas a um jogo. Assistirá à tentativa de uma geração de se libertar de um fardo. A questão não é se o time de José Roberto Guimarães tem voleibol para ser campeão — isso, as inúmeras medalhas já provaram. A questão é se terá a força para espantar os demônios que só aparecem na hora do último ponto.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge