A nova bússola do Itamaraty aponta para o Leste
Análise · Luciano Aragão O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-Myung, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se encontraram no Palácio…
Análise · Luciano Aragão
O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-Myung, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se encontraram no Palácio da Alvorada. Conversaram sobre o futuro. Falaram de minerais críticos, semicondutores, indústria de defesa e cooperação científica. Ao fim, como é de praxe, assinaram atos e anunciaram à imprensa a criação de um grupo de trabalho. O objetivo formal: destravar um acordo comercial entre o Mercosul e a nação asiática. O objetivo real, menos diplomático, é enviar uma mensagem que cruza o continente e chega a Washington.
A diplomacia brasileira se move por estímulos. O mais recente foi a nova rodada de tarifas protecionistas impostas pelo governo dos Estados Unidos. Sem alarde, o Planalto e o Itamaraty passaram a acelerar conversas que, em outros tempos, ocupariam o ritmo protocolar das chancelarias. A visita do líder coreano a Brasília não é um fato isolado, mas uma peça em um tabuleiro que começou a ser rearranjado no dia anterior.
No domingo, um telefonema entre Lula e o líder chinês Xi Jinping tratou de um possível acordo entre a China e o Mercosul. Na segunda-feira, o anúncio com a Coreia do Sul deu materialidade à estratégia. O Brasil procura diversificar parceiros para reduzir a dependência de mercados que se fecham. A urgência de Seul, que precisa garantir o fornecimento de matérias-primas essenciais para sua indústria de alta tecnologia, encontrou a necessidade de Brasília, que busca compradores para seus produtos e, idealmente, investimentos que agreguem valor à sua produção.
Uma cadeia de valor em construção
O comunicado do Ministério de Minas e Energia, divulgado após o encontro, é mais eloquente que as declarações presidenciais. O texto fala em “fortalecimento das cadeias produtivas de minerais críticos”, “incentivo ao processamento mineral, ao refino e à agregação de valor próximos às áreas de extração” e “transferência de tecnologia”. Traduzido do burocratês, o governo brasileiro sinaliza que não pretende ser apenas um exportador de pedras. Quer participar do ciclo completo da produção, dos minérios ao chip.
O presidente Lee Jae-Myung foi direto ao ponto ao mencionar o interesse coreano em cooperar “em todo o ciclo de vida dos minerais críticos na cadeia de suprimento”. É uma via de mão dupla que interessa a ambos. A Coreia do Sul ganha acesso a uma “base estável de oferta”, e o Brasil vislumbra uma oportunidade de industrialização em setores de ponta.
Enquanto o acordo com a União Europeia segue em um impasse que já dura décadas, o governo brasileiro movimenta-se no eixo asiático com uma velocidade incomum. Resta saber se o pragmatismo comercial será suficiente para superar as “sensibilidades” que o novo grupo de trabalho foi encarregado de mapear. Por ora, a bússola da política externa tem uma direção clara.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: Brasil e Coreia do Sul criam grupo para acordo com Mercosul
Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil