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A montanha e a bravata

Análise · Clara Verdi A retórica da guerra é uma gramática da repetição, e seus verbos principais — ameaçar, responder, escalar — são conjugados hoje…

A montanha e a bravata
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

A retórica da guerra é uma gramática da repetição, e seus verbos principais — ameaçar, responder, escalar — são conjugados hoje entre Washington e Teerã com uma familiaridade que não a torna menos perigosa. A declaração de Donald Trump de que atacará “muito em breve” a região da montanha Pickaxe, no Irã, seguida pela réplica do comando militar iraniano de que retaliará contra todos os interesses americanos na região, não é um diálogo novo. É, antes, o mais recente ato de uma peça cujo roteiro parece escrito há muito tempo, aguardando apenas o momento e a vontade política para ser encenado.

O palco é uma montanha no centro do Irã, Kuh-e Kolang Gaz La, um nome que soa distante e técnico até ser traduzido pela inteligência ocidental como Pickaxe. Ali, sob mais de cem metros de rocha, em túneis projetados para resistir às mais potentes bombas antibunker, reside o nervo exposto da desconfiança mútua. Teerã afirma que o complexo subterrâneo ao lado de Natanz, um de seus principais centros nucleares, tem fins pacíficos, uma futura instalação para montagem de centrífugas. Washington, e por extensão Israel, vê ali a materialização de suas piores suspeitas: um programa nuclear com ambições militares, deliberadamente escondido da inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica.

A troca de ameaças poderia ser descartada como mera bravata, o ruído eleitoral de um presidente americano em campanha ou a postura defensiva de um regime sob pressão. Mas as palavras têm peso, especialmente quando lastreadas em imagens de satélite e relatórios de inteligência que indicam a transferência de equipamentos sensíveis para o interior da montanha. O Quartel-General Central Khatam al-Anbiya, ao coordenar a resposta de todos os ramos das forças armadas iranianas, não fala em nome de uma facção. Fala em nome do Estado, e sua advertência de que um ataque seria tratado como uma “ampliação da guerra” é o tipo de linha vermelha que, uma vez cruzada, redesenha qualquer mapa.

Não há inocência nessa escalada verbal. Cada declaração é um cálculo. Para Trump, a imagem de força ressoa com sua base. Para o Irã, a promessa de uma retaliação difusa e devastadora serve como o principal pilar de sua doutrina de dissuasão. O perigo não está tanto na explosão calculada e precisa de uma bomba, mas na imprevisibilidade da conflagração que se seguiria, arrastando aliados e interesses de ambos os lados para um conflito que ninguém admite desejar, mas para o qual todos parecem, metodicamente, se preparar.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Irã ameaça atacar interesses dos EUA se instalações nucleares forem

Fontes: g1 · CNN Brasil