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Ex-controlador do Banco Master usou mesada

Daniel Vorcaro, investigado por recebimento de mesadas, contratou lobistas para acessar autoridades durante semestre crítico.

Ex-controlador do Banco Master usou mesada

Análise · Luciano Aragão

Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, não precisava de um lobista qualquer. Precisava de alguém que soubesse como o Fundo Garantidor de Créditos funciona por dentro, quem atende o telefone no Banco Central fora do expediente e qual senador consegue pautar o que não está pautado. O nome que a Polícia Federal aponta como destinatário de ao menos R$ 6 milhões em mesadas, entre 2024 e 2025, é o do senador Ciro Nogueira, presidente do PP e uma das figuras mais capazes de navegar simultaneamente no campo do governo e da oposição.

O valor em si já é revelador. Mesada pressupõe regularidade — não é cachê por serviço pontual, não é doação eleitoral registrada na Justiça, não é consultoria com contrato e nota fiscal. É fluxo. Fluxo pressupõe agenda contínua, demanda contínua, entrega contínua. A pergunta relevante não é se R$ 6 milhões é muito ou pouco. É: o que foi entregue mês a mês para que o pagamento se mantivesse.

O contexto não é decorativo. O período coberto pela apuração — 2024 e 2025 — coincide exatamente com a tramitação mais sensível da operação de venda de carteiras do Master ao BRB e com o debate sobre o alcance da cobertura do FGC. Foram meses em que a definição de quem pagaria o quê, e a quem, passou por instâncias técnicas, mas também por conversas políticas que nenhuma ata oficial registra. Nogueira não compõe formalmente nenhuma comissão que delibera sobre o sistema financeiro. Mas o Senado Federal é uma instituição pequena o suficiente para que a informalidade seja, muitas vezes, o mecanismo real.

A PF não aponta Nogueira como operador eventual. Aponta como destinatário regular. A distinção importa porque muda a natureza jurídica do que se investiga — e muda também a leitura política do que aconteceu durante aqueles meses.

Há um equívoco recorrente em coberturas desse tipo: tratar o fato como anomalia de caráter individual. O que a apuração descreve é um mercado com preço, prazo e entrega. Vorcaro não inventou o instrumento — pagou o que o instrumento custa. Nogueira não criou a demanda — estava disponível para atendê-la. O que distingue este caso dos demais que nunca chegam à PF é, quase sempre, uma combinação de má sorte operacional e inimizade no lugar errado, não uma ruptura de padrão.

Para Nogueira, o momento é cirurgicamente ruim. O PP atravessa um processo de reposicionamento diante do segundo mandato de Lula, e o senador piauiense é peça central nessa negociação. Uma investigação com essa granularidade — valores, datas, fluxo — retira dele o argumento da imprecisão. Não há como responder a isso com o habitual "não há nada concreto". O concreto, desta vez, veio numerado e com data.

O que a PF encontrou não é um escândalo que interrompe uma história. É um capítulo que ilumina retroativamente os anteriores.

Luciano Aragão

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: PF aponta que Vorcaro pagou R$ 6 milhões em mesada a Ciro Nogueira

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL