Empilhadeiras no escuro
Crônica · Heitor Graça A madrugada do sábado é um país estrangeiro.
Crônica · Heitor Graça
A madrugada do sábado é um país estrangeiro. Pouca gente conhece o idioma das luzes frias de um galpão às cinco da manhã, o barulho de uma máquina que se move no silêncio que antecede o sol. É um tempo que não pertence ao resto da semana, um turno extra no calendário da vida, onde as conversas são mais baixas e os pensamentos, talvez, mais altos.
Imagino um homem de 33 anos, operador de empilhadeira, acordando não para o trabalho, mas para uma tarefa. Não há despertador para certas missões. Veste a roupa de sempre, mas o dia não é de folga. Do lado de fora, a Anchieta ainda dorme o seu sono pesado de asfalto e caminhão. Ele não vai para a rodovia, vai para o pátio que fica à margem dela.
Lá dentro, outros homens já habitam esse fuso horário particular. Um conferente de 54 anos, talvez checando uma última nota antes de passar o bastão. Um supervisor de 44, com a prancheta e a responsabilidade de quem zela pela ordem das coisas. E um colega de empilhadeira, de 39, talvez o único que entendesse o balé mecânico de levar e trazer caixas no escuro.
Não sabemos o que foi dito, ou o que não foi dito, nos dias anteriores. A vida num chão de fábrica tem seus códigos, suas pequenas gozações que podem virar outra coisa, um peso que se acumula como mercadoria no estoque da alma. O boletim de ocorrência tentará traduzir em palavras formais o que era, até as 5h50 da manhã, apenas um mal-estar no ar, uma corrente elétrica invisível entre as prateleiras.
O que se sabe é que um deles, o de 33, trazia consigo algo além da vontade de operar sua máquina. E que outro, o de 39, talvez tenha visto no gesto do colega a necessidade de se interpor, a reação de quem tenta parar uma carga pesada demais. Depois, silêncio. E sirenes cortando a neblina da manhã.
O sol nasceu para todos em São Bernardo do Campo, mas em uma delegacia e em três casas, a luz não chegou. Apenas a notícia, fria e industrial como o galpão onde tudo, menos a vida, continua tendo mil e uma utilidades.
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
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