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A meia hora que o Rio não consegue resolver

Crônica · Heitor Graça Tem uma coisa que o carioca conhece bem: o banco de ônibus às três da tarde, com o sol entrando pela janela do lado direito…

A meia hora que o Rio não consegue resolver
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Crônica · Heitor Graça

Tem uma coisa que o carioca conhece bem: o banco de ônibus às três da tarde, com o sol entrando pela janela do lado direito e a cidade passando lá fora como se não tivesse pressa nenhuma. O que ele conhece menos — porque ninguém pensa muito nisso enquanto está sentado — é o motorista do lado de cá do volante e a meia hora que ele não tem.

Essa meia hora voltou à tona nesta quarta-feira, no Tribunal Regional do Trabalho, durante mais uma audiência de conciliação que terminou sem conciliar nada. A quarta, para quem está contando. Os rodoviários chegaram com suas reivindicações já aparadas: saíram de 17%, cederam para 12%, dividiram em duas parcelas, e ainda assim ouviram como resposta um 5% acompanhado da frase, registrada na ata ou no ar, de que não haveria contraproposta. A próxima audiência ficou para o dia 22.

Mas o que me deteve, ao ler a notícia no fim da manhã com o café já frio, foi justamente essa meia hora. A jornada dos rodoviários é de sete horas e meia. Segundo o sindicato da categoria, a última meia hora é descontada do salário a título de intervalo — só que esse intervalo, dizem eles, não dá tempo de comer direito nem de descansar. A procuradora do Ministério Público do Trabalho ouviu o argumento e pediu às empresas que encontrassem uma solução.

Trinta minutos. O tempo que eu levo para fritar um ovo, perder no truco e me arrepender. Para o motorista que conduziu o articulado desde o Recreio até o Centro com a cidade inteira apoiada sobre seus ombros, essa meia hora é o intervalo entre uma rota e outra — e é também o que aparece descontado no holerite como se fosse um almoço tranquilo num restaurante com ar-condicionado.

Enquanto isso, o estado de greve está mantido. O Rio tem quase oito mil ônibus rodando ou parados dependendo do dia, da negociação, do humor das mesas do TRT. A cidade já viveu três dias de paralisação e pode viver mais. As pessoas que dependem de ônibus para trabalhar — e são muitas, e moram longe, e não têm outra opção — ficam olhando para o ponto com aquela expressão que o Rio ensina desde cedo: a de quem espera sem muita esperança, mas espera.

Na próxima quarta tem mais uma audiência. Alguém vai ter que ceder alguma coisa. Enquanto isso, o motorista do 474 faz a curva na Siqueira Campos, acerta o retrovisor, e a meia hora continua lá, suspensa entre o salário e o descanso, sem pertencer direito a nenhum dos dois.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Rodoviários e empresas de ônibus não chegam a acordo no Rio

Fontes: g1 · UOL