O dia em que o Brasil aprendeu a fazer seu remédio mais vital
Análise · Dra. Camila Torres Há uma diferença substantiva entre distribuir um medicamento e saber fabricá-lo.
Análise · Dra. Camila Torres
Há uma diferença substantiva entre distribuir um medicamento e saber fabricá-lo. O Brasil fez a segunda escolha — e isso, no campo da saúde pública, não é detalhe operacional. É soberania.
O Farmanguinhos, instituto de tecnologia em fármacos da Fiocruz, concluiu a transferência de tecnologia para produzir o dolutegravir (princípio ativo da principal classe de antirretrovirais em uso no país) em território nacional. Mais de 770 mil pessoas vivem com HIV no Brasil e dependem desse medicamento, distribuído gratuitamente pelo SUS. A cadeia que sustenta esse acesso era, até agora, inteiramente dependente de fábricas da GSK no exterior. Não mais — ou quase não mais: falta apenas o aval da Anvisa para que os três lotes já fabricados e validados comecem a chegar às farmácias do sistema público.
O acordo que tornou isso possível foi assinado em 2020, entre a Fiocruz e a ViiV Healthcare, subsidiária da GSK especializada em HIV. Cinco anos de adaptação de planta fabril, capacitação técnica, estruturação regulatória. Não é um processo glamouroso — é o tipo de construção institucional que não rende manchete enquanto acontece, mas cujo colapso, se ocorresse, seria imediatamente percebido por centenas de milhares de pacientes.
O dolutegravir não é apenas o antirretroviral mais prescrito no Brasil por razões de custo ou disponibilidade. Em 2019, a Organização Mundial da Saúde o adotou como opção preferencial de primeira e segunda linha para todas as populações, incluindo gestantes. Ele age inibindo a integrase viral — enzima essencial para que o HIV se insira no DNA das células de defesa do hospedeiro —, reduz a carga viral a níveis indetectáveis com perfil de efeitos adversos relativamente favorável e apresenta alta barreira genética à resistência. É, pelo conjunto dessas características, o que a medicina chama de âncora terapêutica: o medicamento em torno do qual os esquemas são construídos.
Desde 2022, o Farmanguinhos já distribuía ao SUS cápsulas produzidas nas fábricas da GSK — mais de 739 milhões de unidades. A diferença agora é que o conhecimento do processo ficou aqui.
E é exatamente essa distinção que importa do ponto de vista de política pública. A pandemia de Covid-19 expôs, de forma brutal, o que acontece quando países dependem de cadeias produtivas que não controlam: filas por insumos, negociações assimétricas, populações reféns de decisões tomadas em outros continentes. O Brasil, que tem no SUS um dos maiores sistemas de distribuição universal de medicamentos do mundo, não pode se dar ao luxo de ignorar essa lição no campo do HIV — epidemia que, diferentemente da Covid, não tem horizonte de encerramento.
A etapa seguinte do acordo prevê a produção nacional da combinação dolutegravir com lamivudina (outro antirretroviral), também amplamente usada no SUS, com início esperado em 2026. É mais um nó da dependência sendo desfeito com método e paciência institucional — virtudes pouco celebradas, mas que fazem toda a diferença quando o que está em jogo é garantir que um paciente em Marabá ou em Feira de Santana continue tendo acesso ao mesmo tratamento que um paciente em qualquer capital europeia.
Soberania sanitária não é retórica. É Farmanguinhos validando lote após lote num laboratório no Rio de Janeiro.
Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Fiocruz conclui transferência de tecnologia do dolutegravir
Fonte: Agência Brasil
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.