Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

A lente ideológica na diplomacia

Análise · Beatriz Fonseca Um visto revogado. Este foi o gesto escolhido pelo governo de Donald Trump para comunicar sua posição sobre o Brasil.

A lente ideológica na diplomacia
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Beatriz Fonseca

Um visto revogado. Este foi o gesto escolhido pelo governo de Donald Trump para comunicar sua posição sobre o Brasil. A decisão, que atingiu a embaixadora brasileira em Washington, não é um ato isolado. Ela se soma à indicação de um novo embaixador americano para Brasília sem a consulta prévia exigida pelo protocolo e aos ataques do secretário de Estado, Marco Rubio, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A sequência de ações sugere um padrão. Na minha avaliação, há um cálculo deliberado em substituir a gramática do interesse nacional pela da afinidade político-partidária.

A análise é compartilhada pelo cientista político Anthony Pereira, diretor do Roger Thayer Stone Center for Latin American Studies da Universidade Tulane. Em entrevista, Pereira argumenta que a administração Trump observa o Brasil por uma “lente ideológica”, em detrimento de uma visão estratégica. Uma política externa focada em interesses geopolíticos, segundo ele, levaria Washington a priorizar temas como o acesso a minerais críticos e terras raras, recursos nos quais o Brasil tem relevância. A opção por gestos de hostilidade diplomática indica outro caminho.

Este padrão se manifesta também no plano regional. Dias antes do episódio em Washington, o presidente argentino, Javier Milei, esteve em São Paulo para o lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro. No evento, dirigiu-se ao presidente brasileiro como "ladrão, corrupto e presidiário". O governo brasileiro reagiu rebaixando o nível das relações diplomáticas com Buenos Aires. Para Pereira, o episódio diz menos sobre a política externa argentina e mais sobre a ambição de Milei de se projetar como "a grande estrela global da direita".

Os eventos em Washington e São Paulo, embora distintos, se conectam. Ambos demonstram que, para certos governos, os alinhamentos transnacionais de grupos políticos podem se sobrepor às relações de Estado. O cálculo de longo prazo, que envolve comércio e segurança, cede espaço ao gesto de curto prazo, que fortalece bases políticas domésticas e internacionais. A questão que se impõe é sobre a permanência dessa lógica. Quando a diplomacia se torna uma ferramenta de campanha eleitoral, que tipo de relação entre países ela é capaz de construir?

Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Trump prefere guerra ideológica a interesse nos EUA-Brasil

Fontes: Folha de S.Paulo · BBC News Brasil