A guerra dos nomes e a coisa em si
Análise · Clara Verdi Houve um tempo, não faz tanto, em que a História parecia um ofício de retrospectiva, um arrumar de gavetas depois da desordem.
Análise · Clara Verdi
Houve um tempo, não faz tanto, em que a História parecia um ofício de retrospectiva, um arrumar de gavetas depois da desordem. Os eventos aconteciam; os historiadores, depois, lhes davam nome. Guerra dos Sete Anos. Guerra Fria. O século XXI, com sua aceleração brutal, inverteu a lógica. A guerra chega, e com ela uma ansiedade imediata de batismo: seria esta, a que vemos em fragmentos diários, uma guerra mundial? A pergunta deixou de ser provocação de seminário em Chicago ou Paris e se instalou nos gabinetes de Washington. Ela pulsa no encontro entre Trump, Zelensky e Netanyahu, uma fotografia que comprime geografias e alianças em um único salão da Casa Branca.
O que se discute não é uma reedição das trincheiras da Somme ou do cerco a Stalingrado, mas a natureza de uma metástase. Um drone Shahed, iraniano, explode em Kiev. Meses depois, especialistas ucranianos abatem um drone idêntico no Golfo Pérsico. Um navio iraniano afunda no Mar Cáspio, atingido por um drone ucraniano. Soldados norte-coreanos, diz-se, marcham para a linha de frente russa. São pontos que, no mapa-múndi de dois anos atrás, seriam ligados a conflitos distintos, com suas próprias lógicas regionais. Hoje, a linha que os conecta é visível, um traçado que une as estepes da Ucrânia aos desertos do Oriente Médio, passando por Teerã e Pyongyang.
Os analistas oferecem um cardápio de nomes para a coisa. Para Paul Poast, o envolvimento de grandes potências em duas guerras simultâneas, em continentes diferentes, já basta para o título de mundial. Niall Ferguson, mais cauteloso, prefere a familiaridade espectral de uma “Guerra Fria 2”. Outros falam em “eixo da desordem”. A semântica importa menos que o diagnóstico que ela tenta capturar: a fusão de teatros de operação que antes corriam em paralelo. A Rússia arma o Irã, os Estados Unidos armam a Ucrânia, e a Ucrânia agora troca tiros diretos com o Irã. O inimigo do meu inimigo é meu aliado, e as armas e a inteligência fluem por esse sistema circulatório global.
A discussão sobre o nome exato da doença arrisca nos distrair do avanço dela. Chamar ou não de guerra mundial é um debate para quando a poeira assentar. O fato concreto, aqui e agora, é que as guerras já não respeitam suas fronteiras. Elas se alimentam mutuamente, numa escalation que não se dá apenas no terreno, mas na própria lógica das alianças. A fotografia de Washington é o sintoma. Nela, o presidente americano não recebe os líderes de duas guerras distintas. Recebe os comandantes de duas frentes da mesma guerra, uma guerra que ainda não ousamos chamar pelo nome, talvez por medo de que, ao nomeá-la, a tornemos ainda mais real.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Percepção de guerra mundial ganha força entre analistas
Fontes: g1 · BBC News Brasil
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