São Paulo enfrenta fumaça com qualidade do ar diferente
A qualidade do ar em São Paulo mudou nesta semana, trazendo fumaça com características distintas das habituais na região.
Crônica · Heitor Graça
Tinha um cheiro diferente no ar quando a cidade ainda fingia dormir. Não era o cheiro de pão das padarias que abrem às cinco, nem o cheiro de terra molhada que às vezes chega do Tietê quando o vento muda de lado. Era outro. Um cheiro que atravessa janelas fechadas, pousa no travesseiro, entra no sonho e diz: acorda, tem coisa acontecendo.
Na Lapa, um galpão pegava fogo. Dentro dele, peças para carro — aquele inventário anônimo de molas, filtros, correias e parafusos que ninguém pensa enquanto o carro funciona. Quando o galpão começou a arder na rua Emílio Goeldi, tudo aquilo virou fumaça e atravessou os bairros como quem não tem pressa.
São Paulo é uma cidade que convive com seu próprio cheiro o tempo todo. Escapamento, café, churrasquinho de fim de semana, o perfume enjoativo de alguma loja de shopping que insiste em vazar pela porta giratória. A cidade está acostumada a cheirar a si mesma. Mas esta madrugada o cheiro era de coisa que não devia queimar, e isso ela percebeu.
Tem uma qualidade específica no momento em que uma cidade grande acorda sem querer. Não é o despertar de um alarme, nem o de uma sirene de ambulância que passa e some. É um acordar coletivo e mudo — janelas que se entreabrem, narizes que farejam, olhos que piscam no escuro e perguntam à escuridão se ela também sentiu. Em algum apartamento dos bairros vizinhos à Lapa, alguém sacudiu o ombro de quem dormia do lado e disse só isso: você tá sentindo? E a outra pessoa disse que sim, sem nem abrir os olhos direito.
O fogo na Lapa vai se apagar. A fumaça vai se dissipar quando o sol chegar com sua indiferença habitual. A rua Emílio Goeldi vai ficar com o rastro que os incêndios deixam — aquela parede encardida, aquele chão de cinza que a chuva demora a lavar. E o galpão vai virar uma história que os vizinhos contam para quem pergunta o que aconteceu ali.
Mas por algumas horas desta madrugada, uma fumaça fez alguma coisa que São Paulo raramente consegue: juntou a cidade num mesmo pensamento involuntário, num mesmo franzir de nariz, numa mesma pausa antes de voltar a dormir. Não foi pouca coisa, não.
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
Leia o factual: Incêndio em galpão na Lapa espalha fumaça por São Paulo
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL