A fome não é um número
Análise · Clara Verdi A burocracia internacional tem o seu próprio dialeto, um idioma de percentuais e siglas que aplaina a aspereza do mundo.
Análise · Clara Verdi
A burocracia internacional tem o seu próprio dialeto, um idioma de percentuais e siglas que aplaina a aspereza do mundo. Nesta terça-feira, de uma sala em Roma, cinco agências das Nações Unidas — FAO, FIDA, OMS, PMA, Unicef — anunciaram em sua língua polida que a fome recuou. O número, 645 milhões de pessoas, é apresentado como uma vitória discreta, um passo na direção correta. É. E a distância entre o que é e o que deveria ser continua a ser um abismo moral.
Desde 2022, 43 milhões de pessoas deixaram a estatística da fome. O índice global caiu de 8,6% para 7,8% da população do planeta. Lê-se o relatório SOFI 2026 e a sensação é a de observar um gráfico de ações que sobe lentamente após uma queda brutal. Os analistas celebram a tendência, mas a cifra ainda está acima dos níveis pré-pandemia. O progresso, portanto, não é avanço, é recuperação — e uma recuperação incompleta, desigual. A frieza do dado esconde a geografia da ferida: enquanto Ásia e América Latina melhoram, a África concentra a maior parte do problema. A fome, como a riqueza, tem endereço.
Em Roma, onde Pasolini filmava a fome nos subúrbios esquecidos pela reconstrução do pós-guerra, o diretor-geral da FAO, QU Dongyu, pediu mais velocidade, mais investimento, mais política. Uma constatação óbvia, quase protocolar. Foi a ministra brasileira, Fernanda Machiaveli, quem deu nome à questão com uma simplicidade cortante: a fome é evitável. E se é evitável, ela não é um desastre natural, um acidente do destino. É uma escolha.
Uma escolha política
A cada número que baixa, a cada milhão que escapa da insegurança alimentar severa, reafirma-se que a estrutura para alimentar o mundo existe. O que falha é a decisão. Quando um governo, como diz a ministra, prioriza a questão, há avanços. Quando não prioriza, a fome se torna uma ferramenta de controle, um resultado da negligência, uma consequência da guerra. O relatório celebra um progresso que, na verdade, apenas expõe a dimensão do nosso fracasso coletivo. Afinal, 2,1 bilhões de pessoas — um em cada quatro seres humanos — ainda vivem sem saber de onde virá a próxima refeição decente. Essa não é uma nota de rodapé na história do século XXI; é o seu parágrafo central. E não há dialeto burocrático que consiga disfarçá-lo.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Fome mundial recua e atinge 645 milhões de pessoas, diz ONU
Fonte: Agência Brasil
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