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A febre silenciosa das nossas cidades

Análise · Dra. Camila Torres Cinquenta mil mortes. O número, calculado a partir de dados do Sistema Único de Saúde em 14 regiões metropolitanas…

A febre silenciosa das nossas cidades
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Análise · Dra. Camila Torres

Cinquenta mil mortes. O número, calculado a partir de dados do Sistema Único de Saúde em 14 regiões metropolitanas brasileiras ao longo de duas décadas, não tem a violência imagética de um deslizamento de terra. Não há lama, sirenes ou resgates televisionados. A morte por calor é um evento íntimo, muitas vezes doméstico, que se desenrola no silêncio de um apartamento sem ventilação ou no leito de um hospital onde um corpo idoso já não consegue regular a própria temperatura.

O dado, apresentado pela pesquisadora Renata Libonati, da UFRJ, durante um painel no Rio de Janeiro, expõe uma falha em nossa percepção de risco. O calor, no imaginário de um país tropical, é elemento da paisagem, um desconforto sazonal, não um agente de mortalidade em massa. Libonati aponta que as mortes por ondas de calor superam em 20 vezes as causadas por deslizamentos no mesmo período. A tragédia geológica é visível e imediata. A tragédia climática é difusa e estatística. É mais fácil temer a encosta que desmorona do que o ar que se aquece.

O corpo como território

A experiência de quem atendeu em prontos-socorros do SUS ensina a reconhecer os sinais. A pele seca e quente, a confusão mental, a falência de múltiplos órgãos. São quadros de hipertermia, desidratação grave, descompensação de doenças crônicas como hipertensão e diabetes. O calor extremo não é uma força externa que nos atinge; é uma condição que invade e desorganiza o organismo por dentro. O corpo humano é um sistema em delicado equilíbrio, e a febre do planeta se torna a febre do paciente.

O que os especialistas como Libonati, Paulo Artaxo (USP) e José Marengo (Cemaden) projetam é uma intensificação dessa realidade. O fenômeno El Niño, que altera padrões de vento e chuva em escala global, tende a acoplar eventos: ondas de calor, secas e incêndios, como já se observa um aumento de 18% no perigo de fogo em anos de El Niño no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A crise climática não é uma abstração futura. Ela já está sendo registrada nos prontuários do sistema público de saúde.

O desafio é traduzir a epidemiologia em política pública. Se uma onda de calor é um desastre, como afirma a pesquisadora, ela exige um plano de contingência, alertas precoces, centros de refúgio climatizados, hidratação para a população vulnerável. Exige, antes de tudo, que se reconheça o inimigo. Um inimigo que não faz barulho.

Quantos verões ainda teremos de contar nossos mortos para finalmente sentirmos o calor?

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Brasil registra 50 mil mortes por ondas de calor em 20 anos

Fonte: Agência Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.