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A farmácia na porta de casa, e o risco

Análise · Dra. Camila Torres O entregador de bicicleta, mochila térmica nas costas, desvia do trânsito.

A farmácia na porta de casa, e o risco
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Dra. Camila Torres

O entregador de bicicleta, mochila térmica nas costas, desvia do trânsito. Dentro da caixa, lado a lado, podem estar um sanduíche e um anti-hipertensivo. A cena, antes restrita a poucas drogarias com serviço próprio, se prepara para virar a regra. Com a revogação de medidas que proibiam plataformas como iFood e Rappi de intermediar a venda de medicamentos, a Anvisa acena para um futuro de conveniência radical. Um futuro que traz consigo perguntas complexas, ainda sem regulação definida.

A decisão da agência se ampara na Lei nº 15.357, de 2026, que autoriza farmácias licenciadas a contratar esses aplicativos para logística e entrega. Na prática, a barreira que separava o balcão da farmácia da economia de plataforma foi removida. A lógica é a mesma que nos permite pedir qualquer coisa com poucos cliques: a eficiência do algoritmo, a capilaridade da rede de entregadores. É uma preferência cultural, a demanda por um mundo sem atritos.

O problema é que um medicamento não é um produto qualquer. A sua entrega envolve uma cadeia de responsabilidades que a conveniência não pode apagar. Questões que parecem prosaicas ganham contornos de saúde pública. Como garantir que um medicamento que exige refrigeração será transportado na temperatura correta numa mochila que acabou de carregar uma pizza quente? Quem se responsabiliza se uma receita controlada for entregue no endereço errado? A figura do farmacêutico, o profissional de saúde treinado para a orientação final no ato da dispensação, se dissolve na transação digital.

A própria Anvisa admite que a aplicação da nova lei depende de uma regulamentação específica, ainda por ser editada. É nesse detalhe, nos futuros manuais de boas práticas, que mora o desafio. Nos dez anos em que atendi no Sistema Único de Saúde, vi de perto as consequências do uso inadequado de medicamentos — da interação perigosa à dosagem equivocada. A facilidade de acesso é vital, mas ela não pode vir ao custo da segurança do paciente.

O avanço tecnológico na saúde é bem-vindo e inevitável. A telemedicina foi um exemplo disso. Mas sua implementação exigiu protocolos rígidos. A entrega de medicamentos por aplicativos precisa do mesmo rigor. A conveniência de receber um analgésico (dipirona) em minutos é inegável. Mas o que acontece quando a mesma agilidade se aplica a fármacos de uso contínuo, ou que exigem um manuseio delicado?

A caixa do entregador se tornou um símbolo do nosso tempo. O que colocaremos dentro dela, e como, dirá muito sobre as prioridades que escolhemos. A agilidade da entrega ou a segurança de quem a recebe?

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Anvisa libera entrega de remédios por aplicativos como iFood e Rappi

Fontes: g1 · CNN Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.