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A colina e a gramática da ocupação

Análise · Clara Verdi Uma criança e duas mulheres entre os nove mortos em Kfar Roummane.

A colina e a gramática da ocupação
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

Uma criança e duas mulheres entre os nove mortos em Kfar Roummane. Este é o saldo imediato da segunda-feira no sul do Líbano, um número que os despachos das agências de notícias entregarão com a frieza de um relatório de legista. Mas a aritmética da morte esconde a gramática da guerra. E a gramática que se escreve agora no vale abaixo da colina de Ali al-Taher é a da ocupação que se anuncia permanente.

Por meses, Ali al-Taher foi apenas um nome em mapas militares, um ponto estratégico disputado a dez quilômetros da fronteira. Desde a sexta-feira, quando as forças israelenses a tomaram, a colina se tornou um fato político. De sua altura se observa não apenas o terreno, as estradas e as bases subterrâneas do Hezbollah; de lá se projeta uma intenção. O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, não falou em vitória tática. Ele falou na “conclusão do processo de consolidação de nosso controle sobre a zona de segurança”.

Consolidação. Controle. Zona de segurança. O léxico não é o de um conflito de fronteira, volátil e reativo. É a linguagem da administração territorial, do fato consumado. A retórica israelense, que insiste no compromisso com um cessar-fogo enquanto bombardeia aldeias e emite ordens de retirada para vilarejos cada vez mais ao norte, revela a elasticidade semântica necessária a toda expansão. A alegação de que as mortes de civis “está sendo analisada” é parte do mesmo roteiro, a burocracia da violência que se segue ao ato.

Este quadro, claro, é provisório, dependente da resposta do Hezbollah e da disposição do Irã. Uma leitura mais otimista diria que a tomada da colina é uma manobra de força para negociar de uma posição superior, não um prelúdio para um avanço mais profundo. Mas os alertas de evacuação enviados para fora da faixa já ocupada por Israel sugerem o contrário. Sugerem que a “zona de segurança” é um conceito com fronteiras móveis, que se alargam ao ritmo dos bombardeios.

De uma colina no sul do Líbano, Israel não vê apenas o inimigo. Vê a oportunidade de redesenhar um mapa. A questão, para os que vivem nos vales abaixo, não é se a guerra vai escalar. A questão é se a paz que virá depois reconhecerá a geografia que existia antes.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Ataques israelenses matam até 12 no sul do Líbano em escalada

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL