E-mail de Rondônia expõe desafios e conexões globais
Mensagem do estado de Rondônia ilustra desafios interconectados, da Amazônia ao cenário global.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há homens que nascem para carregar o mundo. Outros, para construir pontes. Kaue Motta, de Porto Velho, tentou o segundo caminho. Estudou engenharia civil, desenhou um futuro de concreto e cálculos, mas o mercado de trabalho, essa entidade impessoal e brutal, tinha outros planos. A vida, então, lhe devolveu à vocação primeira: carregar o mundo. Não o globo inteiro, mas uma barra de ferro que, para ele, pesa tanto quanto.
O halterofilismo entrou na vida de Motta como quem não quer nada. Um hobby, dizia ele, um pretexto para manter o corpo ativo enquanto os livros de concurso público se empilhavam. Mas há destinos que não se dobram a editais. Incentivado por gente que já conhecia o mapa do pódio, como o veterano Luciano Montanha, o rondoniense trocou a prancheta pela anilha. Deixou o conforto da casa dos pais e se mudou para São Paulo, onde o sonho tem endereço: o Comitê Paralímpico Brasileiro.
O esporte profissional não é para os que buscam conforto. É um ofício de renúncia. E o passaporte de Motta para a seleção brasileira não foi carimbado em um guichê fácil. Veio em fevereiro, na forma de um índice alcançado. Mas a certeza, aquela que faz o peito afundar e os olhos marejarem, só chegou depois, na frieza de um e-mail. "Não sei expressar a emoção", disse ele. Quem precisa de palavras? A cena se desenha sozinha: o atleta diante da tela, o nome dele ali, oficial, e o telefonema imediato para a mãe, a voz embargada rompendo a distância entre São Paulo e Rondônia.
Agora, ele vai ao México. Único de seu estado na seleção, carrega o nome de Rondônia nas costas, junto com a esperança de uma medalha e o peso de uma trajetória que poderia ter sido outra. É claro que esta leitura pode ser apenas o instantâneo de um começo; o esporte de alto rendimento é mestre em reescrever narrativas. A barra pode não subir, o resultado pode não vir. Mas a vitória de Kaue Motta já aconteceu.
Aconteceu no dia em que ele percebeu que a força para erguer seus sonhos não viria de um diploma, mas dos próprios braços. O que ele fará no México, se voltará com uma medalha pendurada no peito, é o próximo capítulo. Mas qual o peso de uma medalha perto do peso de uma vida inteira que se encontra?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge