João Pessoa transforma areia em celeiro de campeões
João Pessoa, capital da Paraíba, tem se destacado na formação de atletas de alto rendimento nas modalidades de praia.
Análise · Marcos Tibúrcio
A areia de João Pessoa não é apenas areia. É matéria-prima. Nela, o sol do Nordeste forjou o ouro olímpico de Ricardo e Emanuel, a prata de Zé Marco, a linhagem que hoje se vê em George Wanderley. É uma areia que tem memória. Por isso, a candidatura da cidade para sediar a Copa do Mundo de 2029 não é um ato burocrático, uma formalidade de gabinete. É a reivindicação de um direito de nascença.
Há 23 anos o Brasil não recebe o mundo para ver seus melhores atletas na praia. Vinte e três anos. Uma geração inteira que só conheceu a glória por satélite, em areias estrangeiras de climas duvidosos. Durante esse tempo, o Circuito Brasileiro manteve a chama acesa, e desde 1991 a etapa paraibana era menos um evento e mais um rito de passagem. Quem vencia ali, sob o calor que não perdoa e diante de uma gente que entende o jogo pelo silêncio, estava pronto.
A candidatura foi anunciada depois de um Torneio Sul-Americano que valia passagem para as Olimpíadas. Um palco montado para um drama real, com vaga em jogo. É a circunstância que dá peso à intenção. Não se trata de uma promessa vazia, mas de um passo seguinte. Já se treina aqui, já se compete aqui, já se vence aqui. O que falta?
Lá de cima, os dirigentes falam em merecimento, em retribuição ao acolhimento do público. Palavras protocolares, ainda que justas. Na arquibancada, o sentimento é outro, mais antigo. É o de pertencimento. João Pessoa não apenas recebe o vôlei de praia; ela o produz. A cidade foi o laboratório onde um baiano e um paranaense, Ricardo e Emanuel, se tornaram uma das maiores duplas da história. Não por acaso. Aquele pedaço de litoral tem as condições ideais de vento, sol e, principalmente, gente, para transformar talento em medalha.
Claro, uma candidatura depende de planilhas, garantias, lobbies. É possível que outra cidade, com uma estrutura mais vistosa ou um poder político mais influente, acabe por levar o torneio. O jogo fora da quadra é complexo e nem sempre premia a história. Mas o fato, gravado na areia, permanece: o vôlei de praia brasileiro deve a João Pessoa uma parte da sua alma.
Trazer o mundo para ver um torneio ali seria menos uma concessão e mais uma peregrinação. Uma volta à fonte. Para onde se vai quando é preciso lembrar por que o Brasil, nesse esporte, é o Brasil?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge