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A cidade desligada pelo vento

Análise · Renata Peixoto Um muro desaba na zona sul, mata duas pessoas. Em Angra dos Reis, na altura de Mambucaba, equipes buscam um desaparecido.

A cidade desligada pelo vento
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Renata Peixoto

Um muro desaba na zona sul, mata duas pessoas. Em Angra dos Reis, na altura de Mambucaba, equipes buscam um desaparecido. No Galeão, o vento chega a 105 km/h. Na manhã seguinte, um número: 510 mil imóveis no escuro. O vendaval que atravessou o Rio de Janeiro na quarta-feira não foi apenas um evento meteorológico; foi um teste de estresse para a infraestrutura da cidade. Uma prova na qual, mais uma vez, fomos reprovados.

A resposta oficial das concessionárias, Light e Enel, aponta para dezenas de árvores caídas sobre a rede elétrica. É uma explicação factual, precisa, e ao mesmo tempo uma confissão. Ela revela a fragilidade de uma rede aérea, exposta, que atravessa bairros inteiros como Campo Grande, Bangu e Santa Cruz — extensas áreas de moradia da cidade. Essa fiação suspensa, que tratamos como paisagem normal, é a concretização de uma política urbana que aceita o risco como regra.

A política no poste

A interdependência entre os sistemas urbanos fica explícita no apagão. Sem energia, os ramais de Japeri e Saracuruna da TrensRJ param. Os aeroportos Santos Dumont e Galeão operam com restrições. A vida de quem depende do transporte público para chegar ao trabalho em Jacarepaguá ou na Tijuca fica suspensa, presa em uma composição parada ou em um ponto de ônibus que não verá seu veículo passar. A energia não é um serviço isolado; ela é o sistema circulatório que permite a um morador do Recreio dos Bandeirantes existir para além do seu CEP.

Enquanto as equipes da Light e da Enel tentavam acessar as redes danificadas, bloqueadas por troncos em Paraty e Mangaratiba, o Operador Nacional do Sistema Elétrico informava que as cargas na rede de transmissão haviam sido “100% normalizadas” às 17h35. A distância entre a normalidade do sistema macro e a escuridão persistente de meio milhão de lares é o espaço exato onde a política pública falha.

A cidade que fica sem luz por causa do vento é a mesma que soterra seus moradores com a chuva e que isola bairros inteiros com a violência. Não é um acidente. É um projeto. Um projeto que deixa a fiação exposta, as encostas desprotegidas e as calçadas intransitáveis. O vendaval apenas acendeu o holofote sobre a precariedade que, no dia a dia, aprendemos a não enxergar.

Renata Peixoto — Cidades — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Mais de 510 mil imóveis estão sem luz no Rio após vendaval

Fonte: Agência Brasil