A cidade desligada da tomada
Análise · Renata Peixoto A energia elétrica não é um serviço, é a precondição da vida urbana.
Análise · Renata Peixoto
A energia elétrica não é um serviço, é a precondição da vida urbana. Quando 338 mil clientes da CPFL em Ribeirão Preto ficaram no escuro na última sexta-feira, o que se apagou não foram apenas as lâmpadas, mas o próprio funcionamento da cidade. O hospital que opera com gerador, a cirurgia cancelada, a água que não chega à torneira, as 41 escolas com danos estruturais: cada item da lista da Defesa Civil é um sistema urbano que falhou em cascata.
O temporal que atingiu a região, com ventos de até 121 km/h, não foi um evento isolado, mas um teste de estresse para uma infraestrutura que se revelou frágil. A queda de 54 torres de transmissão e mais de 250 postes não é apenas um número no boletim da concessionária; é a materialização da vulnerabilidade. É a política pública — ou a falta dela — concretada em postes que tombam e fios que se rompem, deixando 24 mil residências em Ribeirão Preto, e outras milhares em Guariba e Taquaritinga, esperando pela volta da normalidade por mais de 48 horas.
A fatura da emergência
A resposta ao desastre é um roteiro conhecido e tardio. O prefeito Ricardo Silva (PSD) decreta situação de emergência. O vice-presidente Geraldo Alckmin visita a área, promete verbas para ajuda humanitária e reconstrução de prédios públicos, como as 20 unidades básicas de saúde avariadas. Libera-se o FGTS para as famílias afetadas. São medidas necessárias, mas reativas. Elas atendem à emergência, mas não questionam por que a infraestrutura que deveria servir cidades inteiras se desfaz com uma única tempestade, a maior em 32 anos.
A cidade do interior paulista que se vê no noticiário é a mesma que abriga 370 famílias desalojadas e duas desabrigadas. O debate não pode se limitar à velocidade com que a CPFL restaura a energia. A questão fundamental é sobre o planejamento de um território que, ao expandir-se, não preparou suas redes de suporte para eventos climáticos cada vez mais frequentes e severos. Quando uma estrutura cai e mata uma pessoa dentro de sua própria casa, a discussão transcende a engenharia elétrica e entra no campo do direito à moradia e à cidade segura.
A reconstrução dos prédios públicos, cujo custo, segundo a prefeitura, supera o orçamento disponível, será paga com recursos federais. Mas a conta da resiliência urbana, aquela que previne o colapso em vez de remediá-lo, continua em aberto. Enquanto isso, os moradores de Ribeirão Preto aprendem da forma mais dura que a distância entre uma cidade funcional e o caos não se mede em quilômetros, mas no tempo que se leva para religar um disjuntor.
Renata Peixoto — Cidades — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Ribeirão Preto tem 24 mil clientes sem energia após temporal
Fontes: Agência Brasil · Folha de S.Paulo · CNN Brasil
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.