Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

Heitor Graça publica crônica sobre a chuva na Atlântica

A crônica de Heitor Graça explora o destino da chuva na Avenida Atlântica e sua jornada até o ralo.

Heitor Graça publica crônica sobre a chuva na Atlântica
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

A chuva que cai hoje sobre a Avenida Atlântica tem um destino certo: o ralo. É uma chuva farta, decidida, que lava as copas das amendoeiras e obriga os turistas de sandália a se abrigarem sob a marquise do hotel em frente. Mas toda essa água, que poderia matar a sede de um canteiro mais sofrido lá para dentro do bairro, escorre sem cerimônia pela valeta, une-se a outros detritos urbanos e se perde no mar de onde veio. É um ciclo rápido, eficiente e um tanto inútil.

Lembrei-me dos vasos da minha varanda. A samambaia, mais próxima da grade, bebe a água toda. Já o pé de alecrim, coitado, protegido por um desnível da parede, fica só no sereno. Preciso sempre ir com o regador garantir a parte dele. Se dependesse da grande chuva democrática, o alecrim morreria seco à sombra da abundância.

Abri o jornal no tablet, enquanto o café passava. Uma moça de Realengo, advogada, diretora de um fundo que tem nome de país, falava algo parecido. Falava de um outro tipo de chuva, uma chuva de dinheiro que desce dos céus dos países ricos para cuidar do clima. Uma fortuna, imagino. Mas ela explicava que a água empoça nos telhados de grandes organizações e não chega às raízes, lá em quem de fato vive na terra e da terra. O dinheiro, como a chuva de Copacabana, encontra o caminho mais fácil para o ralo, e não a terra que mais precisa.

A diretora, que se chama Allyne Andrade, disse que essas comunidades tradicionais, além de sofrerem primeiro com a estiagem ou a enchente, são as que mais preservam o chão onde vivem. É uma lógica que faz doer um pouco a cabeça: quem mais cuida é quem menos recebe o recurso para cuidar. Pode ser que minha analogia com o alecrim seja simples demais, eu sei, mas a mecânica do desvio me parece familiar.

A chuva agora afinou. Daqui a pouco o sol abre, o asfalto seca, e ninguém mais se lembrará da água que se foi. Fico pensando se, para o dinheiro do clima, também inventarão um regador.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Fundo Brasil defende direcionar verba climática a povos tradicionais

Fonte: Agência Brasil