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A cadeira vazia da ciência na campanha

Análise · Luciano Aragão “Qual será o lugar da ciência no seu projeto de governo?”.

A cadeira vazia da ciência na campanha
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Análise · Luciano Aragão

“Qual será o lugar da ciência no seu projeto de governo?”. A pergunta, formulada por Francilene Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, é endereçada aos candidatos a governador. É polida. Elegante. E esconde uma constatação menos amável: na largada da campanha de 2026, esse lugar está vazio ou, na melhor das hipóteses, reservado à retórica de ocasião.

A SBPC montou seu Observatório das Eleições 2026 e convida os postulantes a assinar um termo de compromisso. O documento defende o óbvio, que se tornou artigo de luxo no debate público: financiamento previsível, decisões baseadas em evidências, autonomia universitária e respeito à Constituição de 1988. É um pacote de civilidade.

Mais de 60 candidatos já aderiram. O número é um começo, mas revela a distância entre o gesto e a prática. A assinatura é um ato solitário, rápido e sem custo político imediato. Cumprir o prometido exige articulação no Legislativo, renúncia fiscal e, sobretudo, a disposição de ouvir técnicos quando a solução que eles apresentam é impopular ou contraria o cálculo eleitoral do dia seguinte. Essa parte não cabe no papel.

A iniciativa da comunidade científica é um esforço para pautar o debate para além da guerra de costumes e das promessas genéricas de mais segurança e saúde. O caderno “Vozes da Ciência – O Brasil que Queremos” tem 117 propostas. É um programa de governo esperando um governante. O desafio, como diz Garcia, não é apenas definir quanto investir, mas como transformar o conhecimento que já existe — em universidades e institutos de pesquisa estaduais — em capacidade para enfrentar os problemas reais de cada estado.

O quadro pode mudar, e a adesão de um nome de peso pode gerar um efeito cascata. Por ora, a campanha segue seu curso habitual. Nele, a ciência é tratada como uma especialidade, um nicho, e não como a fundação sobre a qual se ergue qualquer projeto de desenvolvimento. É o tipo de assunto que rende aplausos em um auditório de reitores, mas que raramente sobrevive ao primeiro corte do marqueteiro.

Resta saber quantos candidatos, ao fim da eleição, terão respondido à pergunta inicial. E quantos, uma vez eleitos, se lembrarão da resposta que deram.

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: SBPC convida candidatos a governador a apoiar a ciência em 2026

Fonte: Agência Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.