A Bélgica dobra a página — e a próxima já tem nome
Análise · Marcos Tibúrcio Toda geração chega prometendo e parte devendo alguma coisa.
Análise · Marcos Tibúrcio
Toda geração chega prometendo e parte devendo alguma coisa. A chamada geração de ouro da Bélgica foi, talvez, o caso mais exemplar dessa cruel contabilidade do futebol: anunciada como futura campeã do mundo, encerrou o ciclo sem uma taça e com o mesmo título que carregava desde o início — o de promessa não cumprida. A eliminação para a Espanha nas quartas de final desta Copa fechou, com certa dignidade, um capítulo que durou mais tempo do que muitos esperavam.
Courtois, De Bruyne, Witsel, Lukaku. Nomes que encheram pôsteres e previsões durante uma década. Ao final, o próprio Courtois foi o mais honesto no vestiário: "Temos menos talentos individuais do que em 2018." A confissão não é derrota — é clareza. E a clareza, no futebol, costuma ser o passo que antecede a reconstrução.
O que torna este momento belga distinto de outras heranças malditas é que a próxima página não está em branco. Ela já tem escrita, ainda que com letra de quem está aprendendo a segurar a caneta. De Ketelaere, 25 anos, marcou três gols neste Mundial e fez mais pelo cargo de centroavante do que anos de Lukaku como símbolo insubstituível. Doku, referência no Manchester City, carrega nos pés uma velocidade que a geração anterior nunca teve como principal argumento. Ngoy, 23 anos, já foi titular da seleção nesta Copa pelo Lille. São jogadores formados, não esboços.
"A Bélgica sempre pode chegar longe em um torneio, e foi o que aconteceu desta vez", disse Courtois após a eliminação. A frase soa como passagem de bastão — deliberada, quase cerimonial.
Mas o inventário vai além dos que estiveram no Qatar — ou melhor, nos Estados Unidos, México e Canadá. Mika Godts, 21 anos, foi artilheiro do Ajax na última temporada com 17 gols e 15 assistências em 42 jogos. Lucas Stassin, mesma idade, vice-artilheiro do Saint-Étienne na segunda divisão francesa. Nathan De Cat, 17 anos, adquirido pelo Hoffenheim por 17 milhões de euros. Jorthy Mokio, lateral-esquerdo de 18 anos, titular do Ajax com cinco gols e três assistências em 37 jogos — e que já provou na Liga das Nações que não veio para visitar. Nenhum deles esteve na lista final desta Copa. Todos já tocaram a seleção principal.
O que a Bélgica tem agora não é uma geração dourada — o próprio Courtois se encarregou de desfazer a comparação, invocando Lamine Yamal como parâmetro impossível de reproduzir em série. O que tem é algo talvez mais sustentável: profundidade. Um coletivo onde ninguém é insubstituível porque ninguém ainda se tornou lenda. Essa é a condição ideal para construir.
A geração que passou carregou o peso de ser anunciada antes de merecer. A que chega tem a vantagem oposta — chegou aos poucos, pela porta dos fundos, sem manchete de capa. Às vezes, é assim que se monta um time de verdade: sem fanfarra, sem promessa, apenas com jogadores que aparecem quando a bola rola.
Marcos Tibúrcio
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge