Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

A advocacia de meio milhão do pré-candidato

Análise · Luciano Aragão No dia 7 de abril de 2025, o escritório Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia emitiu duas notas fiscais.

A advocacia de meio milhão do pré-candidato
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Luciano Aragão

No dia 7 de abril de 2025, o escritório Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia emitiu duas notas fiscais. Somavam um milhão de reais. O cliente era a Copenhagen Assessoria e Consultoria. Horas depois, as notas foram canceladas. O gesto, segundo o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), foi uma recusa em prestar seus serviços. O que se seguiu sugere uma transação mais sinuosa que uma simples desistência.

A Copenhagen, até onde se sabe, não é uma cliente qualquer. Documentos da Receita Federal em poder de uma CPI mostram que a empresa recebeu R$ 57,9 milhões do Banco Master entre 2024 e 2025. O banco e seus operadores são alvo de investigações por fraudes financeiras. As conexões não param aí. A Copenhagen pertence a um fundo controlado por Tercio Borlenghi Junior, empresário também investigado no mesmo caso por manipulação de mercado.

O senador cancelou o negócio de um milhão de reais com a Copenhagen. Dois dias depois, em 9 de abril, seu escritório emitiu uma nova nota fiscal, desta vez de R$ 500 mil. A destinatária era a Contábil Correa, por serviços de “assessoria jurídica”. Este contrato foi adiante. O dono da Contábil Correa chama-se Rogério Lourenço Novo. Cinco meses após receber o meio milhão de reais do escritório do senador, Novo assumiu a diretoria da Copenhagen, a mesma empresa que tivera suas notas canceladas em abril.

O que o senador descreve como uma relação privada e uma recusa de trabalho se revela um rearranjo. O dinheiro saiu do circuito, trocou de CNPJ, mas permaneceu no mesmo ecossistema de pessoas e interesses. A assessoria jurídica prestada à Contábil Correa acabou beneficiando o futuro diretor da Copenhagen.

Em vídeo, Flávio Bolsonaro protestou contra o vazamento das informações, que atribuiu a uma quebra criminosa de seu sigilo por um órgão governamental não nomeado. Disse ser um ataque para “marginalizar a advocacia”, às vésperas da convenção nacional do PL que o oficializará candidato ao Planalto. Sobre a natureza dos serviços de meio milhão de reais prestados à empresa de Rogério Novo, o senador não ofereceu detalhes. O episódio mostra que, na Brasília dos negócios, uma porta que se fecha pode ser apenas o prelúdio para a abertura de outra, ao lado.

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: Flávio Bolsonaro cancela notas de R$ 1 milhão para empresa ligada

Fontes: g1 · Folha de S.Paulo