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Zé Roberto desenvolve nova arma em 1,63m no basquete

Marcos Tibúrcio analisa como Zé Roberto inova com uma nova tática ou ferramenta no basquete. A camisa de outra cor denuncia a função estratégica do jogador ou da inovação.

Zé Roberto desenvolve nova arma em 1,63m no basquete
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

A camisa de outra cor denuncia a função. O líbero é o avesso, o diferente, o especialista condenado a não saltar na rede, a não cravar a bola no chão adversário. Veste-se assim para que todos saibam de sua sina. Na quarta-feira, no Maracanãzinho, Marcelle entrou em quadra com a camisa igual a todas as outras. E o ginásio, por um instante, talvez não tenha entendido. A líbero da seleção, com o número 22 às costas, caminhou para a linha de saque.

O vôlei, como o futebol, tem suas verdades gravadas em pedra. Uma delas é a da especialização. Cada um no seu quadrado, cada peça com seu ofício. A central bloqueia, a ponteira ataca, o líbero defende. José Roberto Guimarães, um homem que já viu tudo o que há para ver de dentro de uma quadra, resolveu rasgar essa página do manual. Contra o Peru, num jogo que o placar diria ser protocolar, ele mandou sua líbero reserva para o serviço.

Marcelle tem 24 anos e 1,63m. A altura, que um dia a empurrou da ponta para a defesa nas categorias de base, agora a libertava para uma função nova. Sacou três vezes. Não foi um improviso de desespero, uma carta tirada do fundo do baralho. Foi treino. Foi plano. Zé Roberto confirmaria depois: “Durante a nossa preparação, a Marcelle treinou saque”.

O técnico, um tricampeão olímpico, não move uma peça por capricho. Poderia ser visto como um teste contra um rival frágil, uma firula para a arquibancada. O próprio Zé Roberto se encarregou de afastar a suspeita. Com a solenidade de quem pisa em solo sagrado, cravou: "Eu não brinco. Esses jogos valem a vida". A frase ecoa mais que a vitória por 3 a 0. A vida, no caso, é a vaga em Paris. E por ela, um líbero pode, sim, virar a arma secreta no saque. Nenhuma ideia, por mais estranha que pareça no papel, deve ser desprezada quando o que está em jogo é uma Olimpíada.

Ao tirar de Marcelle a camisa de outra cor, Zé Roberto não apenas a autorizou a sacar. Ele a tornou uma jogadora completa outra vez, liberada para atacar, para bloquear, para existir na frente da linha de três metros. Claro, esta pode ser apenas uma miragem tática, uma artimanha útil somente contra adversários de segunda linha. Mas e se não for?

No banco, o Brasil agora tem uma especialista que pode ser duas. Uma defensora que vira sacadora. Uma jogadora de 1,63m que, sem o uniforme de líbero, se agiganta em possibilidades. O que Zé Roberto busca, afinal? Talvez a resposta esteja menos na técnica e mais na alma do jogo: a capacidade de surpreender o inimigo quando ele pensa que já conhece todos os seus soldados.

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Zé Roberto escala líbero Marcelle para saques no Pré-Olímpico

Fonte: ge