Venezuela: os mortos que o regime também enterra
Análise · Clara Verdi Há uma gramática específica para quando um Estado autoritário enfrenta uma catástrofe natural: números divulgados pelo governo…
Análise · Clara Verdi
Há uma gramática específica para quando um Estado autoritário enfrenta uma catástrofe natural: números divulgados pelo governo chegam tarde, crescem de forma errática e vêm sempre pela voz de quem tem interesse político na narrativa. No caso da Venezuela, o porta-voz dos 1.430 mortos é Jorge Rodríguez — presidente da Assembleia Nacional e irmão de Delcy Rodríguez, a líder interina do governo. Não é um detalhe burocrático. É o centro do problema.
A Venezuela de Maduro não tem imprensa independente com acesso real às zonas afetadas, não tem oposição com capacidade institucional de verificar cifras e não tem organismos internacionais de socorro operando com liberdade suficiente para produzir contagens paralelas. O número 1.430, portanto, não é um dado — é uma declaração de governo. Pode estar próximo da realidade. Pode estar muito abaixo dela. O que não pode é ser tratado com a mesma confiança epistêmica de um levantamento da Cruz Vermelha em território acessível.
Isso não é cinismo. É o mínimo que se exige de quem lê notícias sobre regimes que já demostraram, repetidamente, sua disposição de gerenciar o sofrimento como instrumento de comunicação política. A Venezuela fez isso com a crise humanitária dos anos 2010, quando negou por anos a existência de escassez alimentar enquanto filas quilométricas se formavam diante de mercados vazios. O reflexo institucional não muda porque a terra tremeu.
O terremoto de quarta-feira aconteceu num país já destruído — não pela geologia, mas pela combinação de colapso econômico, êxodo de mais de sete milhões de pessoas e uma infraestrutura que o próprio regime não consegue mais esconder que está em ruínas. Quando a terra treme num país assim, os mortos não somam apenas os que os escombros esmigalharam. Somam também os que não tinham hospital funcional a quinze quilômetros, os que não tinham carro para fugir, os que não tinham documentos porque o cartório do município havia fechado há dois anos.
As buscas, segundo o próprio governo, entraram em "fase crítica" — expressão técnica do resgate que, num contexto de opacidade informacional, soa também como aviso de que o que vier a seguir será administrado, não revelado.
A Europa observa com o distanciamento que reserva para tragédias que não interrompem o noticiário do continente. Mas há algo que deveria importar aqui além da solidariedade imediata: a Venezuela é o caso mais acabado, na América Latina, do que acontece quando as instituições de verificação são desmontadas sistematicamente. Quando não há mais jornalismo independente, não há mais contagem confiável de nada — nem de votos, nem de famintos, nem de mortos. A catástrofe natural apenas torna visível, de forma brutal, o que a catástrofe política já havia feito.
1.430 é um número. O que ele representa, de fato, só saberemos se alguém puder entrar, verificar e contar. Por ora, ninguém pode.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Mortos em terremotos na Venezuela chegam a 1.430
Fontes: g1 · Folha de S.Paulo
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.