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Praga enfrenta seca extrema com escassez de água

A capital checa recorre a caminhões-pipa enquanto enfrenta a pior estiagem de sua história recente.

Praga enfrenta seca extrema com escassez de água

Análise · Clara Verdi

Praga tem caminhões-pipa nas ruas. Aarhus, na Dinamarca, registrou sua temperatura mais alta desde 1874 — desde, portanto, antes de qualquer guerra mundial, antes do automóvel, antes de quase tudo que reconhecemos como modernidade industrial. O número não é detalhe: é a régua inteira. Ele diz que o que está acontecendo agora na Europa não tem precedente dentro da memória climática do continente, e que essa memória é longa o suficiente para tornar a afirmação séria.

A Europa tem uma relação particular com a ideia de catástrofe. Ela a teoriza, a musealiza, a transforma em política pública e em diretiva comunitária. O que ela faz com dificuldade — e isso é uma observação de quem a observa de fora, com afeto mas sem reverência — é sentir o problema na pele antes que ele vire documento. A onda de calor que avança agora pelo continente é, entre outras coisas, um teste dessa limitação.

Caminhões-pipa em Praga é uma imagem que pertence a outro imaginário — ao do Rio em colapso hídrico, às periferias do sul global onde a infraestrutura nunca prometeu o que a Europa prometeu a si mesma. Quando essa imagem aparece em capitais europeias, ela provoca um curtocircuito na narrativa que o continente construiu sobre sua própria resiliência e competência administrativa. Não porque a Europa seja hipócrita — ela não é mais hipócrita do que qualquer outra civilização — mas porque apostou muito na ideia de que conseguiria gerenciar o futuro.

O calor não é anomalia. É o sistema funcionando exatamente como foi montado, agora cobrando a conta.

A Dinamarca é um caso que merece atenção específica. Não é um país do Mediterrâneo, onde ondas de calor já fazem parte do repertório climático histórico. É um país nórdico, com uma das maiores rendas per capita do mundo, com infraestrutura pensada para o frio, com uma cultura política que tende ao planejamento de longo prazo. Se Aarhus quebra um recorde que atravessa cento e cinquenta anos, isso significa que o envelope climático dentro do qual aquela sociedade foi construída — suas casas, seus sistemas de saúde, suas cidades — está se tornando obsoleto. Não gradualmente. Agora.

O que me interessa nessa cobertura não é o recorde em si, mas o que ele revela sobre a velocidade da mudança em relação à velocidade da adaptação. As instituições europeias trabalham em ciclos de cinco, dez, quinze anos. O clima, evidentemente, não leu os tratados. E há qualquer coisa de trágico — no sentido grego do termo, de quem conhece o destino e caminha em direção a ele de olhos abertos — na imagem de um continente que produziu a maior parte da teoria e da legislação ambiental do mundo assistindo, verão após verão, ao colapso das condições que tornavam essa teoria necessária.

Praga com caminhões-pipa. Aarhus com seu recorde de 1874. A Europa não está vivendo uma exceção. Está vivendo o presente.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Europa registra recordes de temperatura com onda de calor

Fontes: g1 · CNN Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.