Trump diz que o Irã pode deixar de existir
Há longa tradição de subestimar retórica americana como teatro. Nixon tratava guerra nuclear como hipótese de trabalho.
Análise · Clara Verdi
Há uma longa tradição de subestimar a retórica americana como teatro. Nixon falava de guerra nuclear como hipótese de trabalho. Reagan chamou a União Soviética de Império do Mal enquanto negociava nos bastidores. A linguagem excessiva, em Washington, funciona às vezes como válvula, não como detonador. Mas existe uma diferença entre a hipérbole calculada do político experiente e a ameaça existencial dita de improviso — e Trump, neste sábado, disse que o Irã "não existirá mais" se os Estados Unidos decidirem intensificar seus ataques. Não é uma frase que se possa dobrar e guardar no bolso.
O contexto imediato: é o segundo dia consecutivo de ataques americanos a alvos iranianos, justificados pelo governo de Washington como "resposta direta à contínua agressão iraniana contra o transporte comercial". A formulação é cuidadosa do ponto de vista jurídico-diplomático — invoca a liberdade de navegação, princípio caro ao direito internacional e conveniente à narrativa americana. Mas o que está em curso não é uma operação policial marítima. É o começo, ou o meio, de algo cuja escala ainda não se revelou.
O Irã não é o Iraque de 2003, e qualquer analogia direta seria uma redução grosseira. Teerã tem profundidade estratégica, alianças que atravessam o Oriente Médio — Hezbollah, milícias no Iraque, os houthis no Iêmen — e um programa nuclear cujo estado real de desenvolvimento nunca foi completamente auditado pelo Ocidente. Um ataque que "intensifique" a campanha em andamento não enfrenta um Estado frágil: enfrenta um Estado resiliente, historicamente acostumado ao cerco, com capacidade de resposta assimétrica que não precisa de exército convencional para causar dano real.
A frase de Trump não é apenas ameaça ao Irã. É um sinal lançado simultaneamente a Tel Aviv, a Moscou, a Pequim e, talvez mais do que todos, ao eleitorado americano que o elegeu com a promessa contraditória de não fazer guerras e de fazer o inimigo tremer.
Da Europa, a leitura é de paralisia calculada. O continente vive sua própria exaustão securitária — a guerra na Ucrânia ainda consome atenção política e recursos militares — e não tem nem apetite nem capacidade de se interpor entre Washington e Teerã. O silêncio europeu neste momento não é neutralidade: é abdicação. E abdicação, na política internacional, tem consequências que aparecem mais tarde, quando os documentos são desclassificados e os historiadores perguntam por que ninguém falou.
O que a frase de Trump faz, tecnicamente, é normalizar o inimaginável. Quando um presidente americano em exercício diz que um país de noventa milhões de habitantes pode "deixar de existir", e quando essa frase aparece como nota de rodapé em meio à cobertura de ataques já em curso, algo se deslocou no vocabulário do possível. Não necessariamente no campo militar. Mas no campo do que se pode dizer sem consequência. E isso, por si só, muda o que vem depois.
Clara Verdi é correspondente Europa da Xaplin.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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Fontes: Folha de S.Paulo · BBC News Brasil