Venezuela: o terremoto que não para de matar
Análise · Clara Verdi Há uma lógica cruel nos desastres naturais que atingem países com Estado deteriorado: o tremor dura segundos, mas a catástrofe…
Análise · Clara Verdi
Há uma lógica cruel nos desastres naturais que atingem países com Estado deteriorado: o tremor dura segundos, mas a catástrofe se instala em ondas. A Venezuela, que já vivia uma crise sanitária anterior aos terremotos de 24 de junho, agora enfrenta o segundo movimento dessa sequência — e é nele que os números tendem a crescer de forma mais silenciosa e mais evitável.
Quatro mil cento e dezoito mortos em pouco mais de duas semanas. Dezesseis mil setecentos e quarenta feridos. Quase dezoito mil pessoas ainda em abrigos públicos. Os dados divulgados pelo regime de Maduro nesta sexta-feira são, por si, uma catástrofe de proporção rara para a América Latina. Mas o que a OMS sinalizou na quinta-feira aponta para uma segunda catástrofe dentro da primeira: os abrigos estão superlotados, com saneamento precário e acesso insuficiente à água potável. Cólera, tuberculose, tétano, sarampo — doenças que a medicina do século XX aprendeu a tornar raras — voltam a ser nomes possíveis em La Guaira e Caracas.
Isso não é coincidência. É consequência direta de um sistema de saúde que entrou em colapso antes do terremoto. A Venezuela já registrava surtos de sarampo e difteria desde 2017, doenças que praticamente não existiam mais no continente. A cobertura vacinal, que a OMS agora identifica como risco adicional para as populações desabrigadas, não era satisfatória antes dos tremores. O terremoto não criou a vulnerabilidade — ele a expôs, e a aprofundou.
Pelo menos 300 pessoas em La Guaira foram enterradas sem identidade. Material genético arquivado, familiares esperando. É a imagem mais precisa do que acontece quando um Estado não tem capacidade de identificar seus próprios mortos.
As Nações Unidas estimam que 1,3 milhão de venezuelanos precisam de ajuda humanitária. Trezentos milhões de dólares foram mobilizados para operações no país. São números que soam grandes até que se calcule: menos de 230 dólares por pessoa afetada, num país onde importar qualquer insumo médico ou de saneamento requer logística que o Estado não tem e o mercado não oferece com facilidade. A OMS avalia abrir hospitais de campanha. O verbo "avaliar", nessa frase, pesa mais do que parece.
O regime de Maduro divulga os números de mortos — e isso é, em termos de transparência, mais do que se esperaria de um governo que costuma gerenciar informação como instrumento político. Mas divulgar número não é o mesmo que ter capacidade de resposta. Não há informações oficiais sobre desaparecidos, o que, diante de 4.118 mortos confirmados e tantos enterrados sem nome, levanta dúvidas sobre o que ainda não foi contado.
A Europa acompanha de longe, como sempre faz com a América Latina quando o desastre não gera fluxo migratório imediato em direção ao Mediterrâneo. A diáspora venezuelana — que já é uma das maiores do mundo, com milhões espalhados pela Colômbia, Peru, Espanha — observa de ainda mais perto, e com a impotência de quem não pode voltar. Para eles, os tremores de junho não chegaram como notícia. Chegaram como telefonema.
O que se passa na Venezuela não é só uma tragédia sísmica. É o encontro entre uma força geológica indiferente e uma estrutura política que destruiu, ao longo de anos, exatamente os mecanismos que existem para proteger as pessoas quando a terra treme.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Venezuela registra 4.118 mortos após terremotos de junho
Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil
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