Uma pequena caixa e o mapa do intestino brasileiro
Análise · Dra. Camila Torres Mais de quarenta milhões de brasileiros podem, a partir de agora, levar para casa uma pequena caixa plástica.
Análise · Dra. Camila Torres
Mais de quarenta milhões de brasileiros podem, a partir de agora, levar para casa uma pequena caixa plástica. Dentro, um kit de coleta. O gesto é simples, privado, quase banal. A implicação, não. Com a inclusão do teste imunoquímico fecal, o FIT, na tabela do SUS, o Brasil começa a desenhar um mapa em larga escala de uma de suas doenças mais silenciosas e prevalentes: o câncer colorretal.
Não se trata de um procedimento diagnóstico. A portaria é clara: o exame se destina ao rastreamento, à busca ativa e periódica em homens e mulheres de 50 a 75 anos sem qualquer sintoma. É a lógica da epidemiologia aplicada à ponta do sistema, uma tentativa de encontrar o incêndio quando ele ainda é faísca. O câncer colorretal é o segundo mais comum no país, sem contar os tumores de pele. A estimativa do Inca para os próximos anos é de quase 54 mil novos casos anuais. São números de saúde pública que exigem uma estratégia para além do consultório.
O teste antigo, que também buscava sangue oculto, sofria de um problema de especificidade. Restrições alimentares, sangramentos de outras fontes, tudo podia gerar um falso alarme. O FIT é mais preciso. Utiliza anticorpos que reagem especificamente à hemoglobina humana, o que lhe confere uma sensibilidade citada pela pasta entre 85% e 92%. Na prática, isso significa uma peneira mais fina, com menos chances de enviar ao próximo passo — a colonoscopia — quem não precisa dela.
E aqui reside o centro da questão. O FIT não substitui a colonoscopia, que segue como o procedimento definitivo para visualização, diagnóstico e até remoção de pólipos pré-malignos. Ele a otimiza. Em um sistema com recursos finitos e filas que conheço bem, usar um exame de rastreio barato e não invasivo para selecionar quem de fato necessita de um procedimento complexo e caro é uma decisão de gestão inteligente. É alocar o endoscópio, o anestesista e a sala para o paciente com maior probabilidade de benefício.
O desafio, como sempre no SUS, transcende a publicação no Diário Oficial. Depende da capilaridade da atenção primária para ofertar o kit, da logística para analisar as amostras e, crucialmente, da capacidade da rede em absorver a demanda por colonoscopias que surgirá dos resultados positivos. Um rastreio bem-sucedido que encontra um gargalo no diagnóstico vira apenas um mapa de problemas sem solução.
Ainda assim, é um passo fundamental. Oferece uma ferramenta para que o sistema de saúde possa olhar para dentro de milhões de intestinos sem precisar invadi-los um a um. A pequena caixa entregue no posto de saúde é, no fundo, uma pergunta. Quem vai respondê-la?
Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.
Leia o factual: SUS inclui novo teste para rastrear câncer colorretal
Fonte: Agência Brasil
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.