Candidatos recebem proposta de segurança além da polícia
Uma carta com 27 pontos propõe abordagem abrangente para a segurança, desafiando foco exclusivo na ação policial.
Análise · Beatriz Fonseca
Uma carta com 27 pontos chegou à mesa dos candidatos. Não veio de um partido, de um ministério ou de uma associação de classe. Foi escrita em Fortaleza, no que se chamou 1ª Conferência Popular de Segurança Pública, por um conjunto de organizações da sociedade civil, movimentos sociais e familiares de vítimas da violência de 16 estados brasileiros. O documento propõe uma inversão de lógica: tratar a segurança pública a partir da prevenção, não da repressão.
A tese central é que a segurança não se resume a policiamento. Na visão dos proponentes, ela se articula com políticas que garantam direitos e reduzam desigualdades. A proposta busca deslocar o eixo do debate eleitoral de 2026, tradicionalmente focado em efetivos e armamento, para temas como o controle da atividade policial, a redução da letalidade e o fim do que o texto chama de perfilamento racial nas abordagens.
Edna Jatobá, do Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop) e uma das articuladoras do documento, afirma que se trata de uma “agenda concreta formulada a partir da experiência de quem vive nos territórios”. A menção aos territórios é central. Ela sinaliza que o conhecimento mobilizado ali não é acadêmico ou puramente técnico, mas vivencial. É a experiência que informa a política pública.
A complexidade como método
Em ano eleitoral, a simplificação costuma ser a regra. O documento, ao contrário, aposta na complexidade. “Segurança pública é um assunto complexo e não se responde a um problema complexo de maneira simplória”, diz Jatobá. A estrutura da carta reflete essa premissa: as propostas são apresentadas como interdependentes e divididas pela competência de cada órgão público, seja no Executivo ou no Legislativo, em nível federal ou estadual.
Na minha leitura, o maior desafio da carta não está no mérito de suas propostas — muitas das quais, como o uso de câmeras corporais, já integram o debate público —, mas em sua capacidade de furar o bloqueio da discussão eleitoral. A segurança pública é um campo fértil para respostas de apelo imediato, que prometem resultados rápidos por meio da força. Uma agenda que fala em prevenção, cidadania digital e desmilitarização exige um tempo de maturação política que o ciclo de uma campanha raramente oferece.
O quadro, por certo, é efêmero. A recepção da carta pelos comandos de campanha dirá se a sociedade civil conseguiu pautar os candidatos ou se apenas entregou um documento para o arquivo. A questão não é se os 27 pontos são viáveis, mas se existe espaço político para discuti-los sem que a conversa comece, e termine, na polícia.
Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Sociedade civil propõe 27 pontos para segurança em 2026
Fonte: Agência Brasil