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Um passo além da pílula diária

Análise · Dra. Camila Torres A profilaxia pré-exposição ao HIV, ou PrEP, nunca foi apenas uma questão farmacológica.

Um passo além da pílula diária
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Dra. Camila Torres

A profilaxia pré-exposição ao HIV, ou PrEP, nunca foi apenas uma questão farmacológica. Desde sua incorporação ao SUS em 2017, a estratégia de oferecer antirretrovirais a pessoas não infectadas para prevenir a contaminação representou uma mudança de paradigma: o foco da prevenção deslocou-se do ato sexual para uma rotina de cuidado contínuo. Exigia, no entanto, um compromisso diário, a disciplina de um comprimido que se integra à vida como um lembrete constante da vulnerabilidade.

O anúncio de um acordo para a compra do cabotegravir, uma PrEP injetável de longa duração, propõe uma nova fronteira para essa rotina. A proposta, que será submetida à análise da Conitec, a comissão que decide as incorporações tecnológicas no SUS, troca a ingestão de mais de 700 pílulas ao ano por seis injeções. É uma alteração de ordem prática, mas com implicações profundas na experiência da prevenção. A fala do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante a conferência internacional de Aids no Rio de Janeiro, foi precisa ao apontar o alvo da nova tecnologia: aqueles que "enfrentam dificuldades de adesão ao uso diário da medicação".

A liberdade da discrição

A adesão é um desafio complexo em qualquer tratamento crônico. Envolve esquecimento, custo, efeitos colaterais. No caso da PrEP, soma-se a isso o peso do estigma. Manter uma cartela de antirretrovirais pode significar, para muitos, a necessidade de dar explicações indesejadas, de navegar o preconceito dentro da própria casa ou em relacionamentos. Uma injeção bimestral, aplicada em um serviço de saúde, remove o objeto da equação cotidiana. Oferece discrição. Liberta o indivíduo de uma gestão diária do risco e do segredo.

A eficácia do cabotegravir, já demonstrada em ensaios clínicos conduzidos em instituições como o Hospital das Clínicas da USP, não está em questão. O debate que se seguirá na Conitec será, como sempre, sobre a relação entre custo e benefício. O preço ventilado de 400 dólares por dose é alto, embora substancialmente menor que os R$ 4.000 cobrados no mercado privado. A negociação é um ato de equilíbrio entre a responsabilidade fiscal e o impacto em saúde pública de uma ferramenta que pode alcançar populações que a pílula diária, por diversas razões, não conseguiu engajar plenamente.

A decisão de incorporar, ou não, o cabotegravir ao arsenal do SUS não é sobre substituir uma estratégia pela outra. É sobre ampliar o leque de opções. É reconhecer que, na longa resposta brasileira à epidemia de HIV — uma resposta marcada pela inovação e pela defesa do acesso universal —, a melhor ferramenta de prevenção é aquela que o paciente de fato consegue usar.

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Saúde anuncia acordo para comprar PrEP injetável contra o HIV

Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.