Um domingo de outras cores em Copacabana
Crônica · Heitor Graça O som que subiu da rua neste domingo não era o de sempre.
Crônica · Heitor Graça
O som que subiu da rua neste domingo não era o de sempre. Não trazia o samba-enredo ensaiado fora de época, nem o funk que vaza das caixinhas de som na areia, muito menos o pregão do vendedor de mate. Era um som diferente, feito de tambor e vozes. Da minha janela, a mancha de gente que tomava o asfalto de Copacabana parecia um rio de muitas cores correndo na direção contrária à do mar.
Desci, como quem vai à padaria e se distrai no meio do caminho. Fui atraído não pela grandiosidade do ato, mas por um detalhe: uma menina, nos ombros do pai, que segurava com uma seriedade de gente grande a ponta de uma faixa. Seus olhos não miravam o horizonte da orla, como os meus tantas vezes fazem, mas percorriam os rostos ao redor, os turbantes, as camisetas com um rosto que a cidade aprendeu a não esquecer. Era um olhar de quem está sendo apresentado ao mundo e, ao mesmo tempo, a um antigo álbum de família.
Perto dela, uma senhora de cabelos brancos e porte de rainha, Marinete, consolava com um abraço uma moça que chorava sem ruído. Não era um choro de derrota; tinha qualquer coisa de alívio, de encontro. Passei por um casal de moças, Cinthia e Laísse, de mãos dadas. Uma disse à outra uma palavra que o vento quase levou, mas que eu consegui pescar: “pertencimento”. A outra sorriu, e naquele sorriso cabia toda a marcha.
Ouvi trechos de discursos, falas sobre bem-viver, reparação, futuro. Mas o que ficou não foram as palavras de ordem. Foi o gesto de uma educadora, Bárbara, ajeitando o cabelo da filha enquanto explicava algo que a menina parecia entender perfeitamente. Foi a batida do grupo Angoleiras que fazia o chão tremer de leve, uma pulsação que parecia vir de dentro da terra.
Voltei para casa quando o sol começou a cair. A avenida voltava ao seu ritmo normal, de carros e bicicletas. Mas o asfalto parecia guardar a memória dos pés que por ali passaram. O ar, por um instante, ficou mais leve. Era como se, por algumas horas, Copacabana tivesse finalmente aprendido uma nova canção.
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
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Fonte: Agência Brasil