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Treze gols e o fantasma de Fontaine sobre Paris

Análise · Marcos Tibúrcio Há números que são apenas números. E há números que carregam o peso de uma época.

Treze gols e o fantasma de Fontaine sobre Paris
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Análise · Marcos Tibúrcio

Há números que são apenas números. E há números que carregam o peso de uma época. Mbappé e Dembélé chegaram a 13 gols somados nesta Copa do Mundo de 2026, em seis partidas, e a primeira coisa que o registro estatístico faz é convocar fantasmas. O de Ronaldo e Rivaldo, primeiro — 13 gols também, no Brasil de 2002, o Brasil que ganhou. Depois, mais antigos e mais pesados, os de Kocsis e Puskás, 15 gols na Hungria de 1954, a Hungria que perdeu a final para a Alemanha de forma inexplicável. E, no topo de tudo, Just Fontaine e Raymond Kopa, 16 gols, 1958, recorde que resiste há quase sete décadas como se tivesse sido cimentado na pedra.

Mbappé tem oito. Dembélé tem cinco. Os dois já realizaram algo que não acontecia desde Ronaldo e Rivaldo: foram os primeiros companheiros de seleção a marcarem pelo menos cinco gols cada numa mesma edição do torneio em 24 anos. Mas o dado que diz mais sobre a dimensão do que está acontecendo é outro — juntos, eles têm mais gols do que 45 das 48 seleções presentes nesta Copa. Não é retórica. É aritmética com textura de drama.

A França ainda tem ao menos dois jogos pela frente. Na semifinal de terça-feira, a Espanha. Depois, uma final ou uma disputa de terceiro lugar. Três gols separam Mbappé e Dembélé do recorde de Fontaine e Kopa — e o irônico é que aquela França de 1958 foi eliminada justamente pelo Brasil, na semifinal, por 5 a 2, e terminou em terceiro. Esta França de 2026, se vier a igualar ou superar o número, terá de chegar mais longe do que chegou a geração que criou a marca.

É tentador transformar Mbappé em personagem único desta história, e ele merece boa parte do protagonismo: 20 gols em 20 jogos de Copa do Mundo é uma regularidade que pertence a outro vocabulário. Mas a grandeza desta marca específica está exatamente em ser partilhada. Dembélé, cinco gols, não é coadjuvante — é metade da equação. Duplas de goleadores em Copas revelam algo sobre como uma seleção foi construída, sobre o sistema tático que as abriga, sobre a confiança que o técnico depositou em dois homens para carregar o peso ofensivo de uma nação. Quando duas referências marcam em quantidade assim, é porque o time foi desenhado para isso.

Fontaine marcou 13 gols sozinho em 1958. O recorde coletivo que Mbappé e Dembélé miram foi erguido com Fontaine somando os gols de Kopa aos seus. A aritmética da história tem dessas ironias: o teto é francês, os que sobem para alcançá-lo também são.

A semifinal contra a Espanha dirá se este projeto de Copa tem substância para chegar até o fim ou se vai repetir o destino daquela França de 1958 — que saiu da história com o recorde, mas sem a taça. O número 16 está a três gols. A pergunta que fica não é se eles chegam lá. É o que acontece depois que chegarem.

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Mbappé e Dembélé igualam dupla mais goleadora de Copas desde 2002

Fonte: ge