O Flamengo no Algarve: espelho partido, teste de verdade
Análise · Marcos Tibúrcio Há uma crueldade discreta nos amistosos de intertemporada. O resultado não conta, dizem os técnicos.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma crueldade discreta nos amistosos de intertemporada. O resultado não conta, dizem os técnicos. E é verdade — até que deixe de ser. Porque o jogo em si conta, o ritmo conta, a forma como cada homem em campo lida com a ausência dos companheiros que estão em outra parte do mundo, esses sim, conta muito. O Flamengo que entra neste sábado no Estádio Algarve diante do Benfica não é o Flamengo inteiro. É um Flamengo partido ao meio pela Copa do Mundo — e essa fratura é, ela mesma, o tema central da tarde.
Leonardo Jardim perdeu nove convocados para o torneio nos Estados Unidos, Canadá e México. Paquetá, Arrascaeta, De la Cruz, Léo Pereira, Danilo, Alex Sandro, Varela, Plata e Carrascal estão espalhados pelos grupos da Copa. Léo Ortiz nem convocado foi: está parado com lesão na coxa. Ayrton Lucas sentiu dores no amistoso contra o Lausanne-Sport e é dúvida. O que resta, portanto, é uma seleção de quem ficou — e é sobre esses homens que a tarde no Algarve vai dizer algo.
O Flamengo chegou a Portugal depois de um calendário irregular: três vitórias, um empate e duas derrotas nos últimos seis jogos antes da pausa. Não é uma equipe que interrompe uma sequência de glória. É uma equipe que parou num momento de indefinição, e que agora precisa usar a intertemporada para mais do que trocar de ar. Precisa encontrar um fio condutor que sobreviva ao retorno dos convocados, quando o elenco voltar à sua configuração cheia e Jardim tiver de montar o time de verdade para a sequência do ano.
O Benfica, por sua vez, mal começou a existir como time. A pré-temporada dos encarnados teve início em 26 de junho — há menos de duas semanas. Este será o primeiro jogo de Marco Silva no comando do clube, o homem contratado para substituir José Mourinho, que voltou ao Real Madrid. Lenglet e Kamiński já estão no elenco; Otamendi saiu para o River Plate. É um time em construção enfrentando um time em adaptação.
O que torna este amistoso interessante não é o placar que vai sair — é a conversa silenciosa entre dois clubes em momentos de transição. O Flamengo de Jardim ainda não mostrou uma identidade clara ao longo da temporada. A escalação provável — Rossi; Royal, João Victor, Vitão e Ayrton Lucas; Pulgar, Jorginho e Luiz Araújo; Bruno Henrique, Samuel Lino e Pedro — é competente, mas dependente de quem carrega a bola e de quem dá a direção. Pulgar e Jorginho no meio precisam de mais do que disciplina; precisam de autoridade.
Pedro, que voltou de lesão grave e reassumiu a camisa nove, é o nome que a tarde vai observar com mais atenção. Não pela estatística — pelo gesto, pela presença, pela confirmação de que está de volta de verdade. Num time sem seus armadores habituais, o centroavante precisará ser mais do que referência: precisará ser destino e ponto de partida ao mesmo tempo.
O Flamengo volta ao Rio no domingo. Na semana seguinte, enfrenta o Olimpia em Brasília, o jogo que fecha oficialmente a pausa da Copa. Portugal, então, não é destino — é preparação. Mas preparação também é argumento. E este sábado no Algarve vai dizer, com mais honestidade do que qualquer treino fechado, se o argumento de Jardim está de pé.
**Marcos Tibúrcio**Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fontes: CNN Brasil · ge