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O Estado que evacua 1,8 milhão não precisa pedir desculpa

Análise · Clara Verdi Há uma cena que costuma passar despercebida nas coberturas de tufão: a fila.

O Estado que evacua 1,8 milhão não precisa pedir desculpa
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Análise · Clara Verdi

Há uma cena que costuma passar despercebida nas coberturas de tufão: a fila. Não a fila do caos, de quem foge sem saber para onde, mas a fila organizada, o ônibus na hora certa, o ginásio público com colchonete e água engarrafada. É essa cena, banal na aparência, que sintetiza o que a China construiu ao longo de décadas de convívio forçado com fenômenos climáticos extremos — e é justamente essa banalidade que a torna politicamente difícil de discutir no Ocidente.

O tufão Bavi não é excepcional na trajetória. Nasceu sobre o Mar das Filipinas, atravessou o arquipélago de Sakishima no sul do Japão, roçou o norte de Taiwan e agora avança sobre Wenzhou, cidade de dez milhões de habitantes no leste da China. O que chama atenção não é a rota do fenômeno, mas a escala da resposta: mais de 1,8 milhão de pessoas retiradas de áreas de risco antes do impacto, a maioria na província de Zhejiang. Evacuação preventiva, não reativa. A diferença entre as duas não é logística. É filosófica.

A China tem razões históricas e geográficas para ter desenvolvido essa capacidade. A costa leste do país é uma das regiões mais expostas a ciclones tropicais no mundo, e as consequências de não reagir a tempo estão gravadas na memória institucional com precisão brutal — o tufão Nina de 1975, que rompeu a barragem de Banqiao e matou entre 85 mil e 240 mil pessoas, dependendo da fonte e do grau de abertura do arquivo, permanece como o espectro que organiza o treinamento de gerações de funcionários de defesa civil. A capacidade atual não surgiu do nada. Surgiu do luto e da vergonha.

Mas há uma dimensão contemporânea que o dado de 1,8 milhão ilumina de forma incômoda. Enquanto o Bavi perde força sobre águas mais frias — os ventos sustentados de 144 km/h na manhã de sábado devem cair antes do landfall —, o que não diminui é o volume de umidade que carrega. As bandas de chuva do sistema cobrem uma área comparável ao tamanho da França, segundo a CNN Brasil. Chuva intensa, enchentes, deslizamentos: é esse o verdadeiro risco de um tufão que "fraqueja". E é para esse risco difuso, invisível nos mapas de olho do ciclone, que a evacuação em massa se justifica com mais clareza.

Nas Filipinas, onde o Estado não tem a mesma musculatura logística, o tufão já deixou 17 mortos — não pelo vento, mas pelas chuvas que intensificaram as monções. É a assimetria mais dolorosa da cobertura climática: o mesmo fenômeno, resultados radicalmente distintos, dependendo de qual Estado ele encontra pela frente.

Huang Xinghuan, 50 anos, fez compras antes do mercado fechar e armazenou água para dois ou três dias. "Não há necessidade de entrar em pânico", disse. É a frase de alguém que confia na infraestrutura ao redor. Não é ingenuidade. É uma relação — com o Estado, com o território, com a própria vulnerabilidade — construída ao longo do tempo.

O debate sobre a natureza do Estado chinês é legítimo e necessário. Mas ele não pode servir de desculpa para ignorar o que essa evacuação representa como dado de realidade. Em algum momento, o mundo terá de responder a uma pergunta que a mudança climática está tornando urgente: que tipo de Estado você precisa ter para mover 1,8 milhão de pessoas antes que a tempestade chegue? E o que você está disposto a construir — ou a sacrificar — para ter essa resposta pronta?

Clara Verdi é correspondente Europa da Xaplin e escreve de Paris.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: China evacua centenas de milhares antes do tufão Bavi chegar à costa

Fontes: g1 · CNN Brasil