Três palavras em corpo nove
A mentira, quando tenta entrar numa redação, prefere o corpo nove.
OMBUDSMAN · crítica interna. A coluna sai aos domingos.
Na edição de estreia da Intermezzo, sob quatro imagens, a legenda dizia: “arquivo Intermezzo”. Não havia arquivo. As imagens foram geradas por inteligência artificial. Três palavras em corpo nove, no canto discreto da página — e falsas.
Ninguém mente em manchete nesta casa; há portão para isso, e ele funciona. A mentira, quando tenta entrar numa redação, prefere o corpo nove. Legenda, crédito, rodapé — os lugares que o leitor lê sem perceber que leu. É exatamente ali que a credibilidade mora, e é ali que ela morre primeiro. Uma casa que promete anti fake news sempre não tem direito a um arquivo que não existe, nem que ele caiba em três palavras.
Registro a correção: nesta quinta-feira, 3 de julho, as quatro legendas foram trocadas. Onde se lia “arquivo Intermezzo”, lê-se agora “ilustração gerada por IA · direção de arte Eduardo Schiavon”. A imagem passou a declarar o que é. A correção não apaga o erro — e não deve. Erro corrigido em silêncio é erro cometido duas vezes; fica aqui o registro público.
A mesma edição trazia, na reportagem de capa, uma confissão rara na imprensa: “Não há entrevistas com terceiros nesta reportagem.” Anoto o mérito da honestidade e o tamanho da dívida que ela confessa. Reflexão sem apuração é ensaio — gênero digno, desde que não se vista de reportagem. A casa prometeu, por escrito, a régua da próxima edição: capa só com apuração viva, ao menos uma entrevista real ou um documento nomeado, com data. Vou cobrar. É para isso que este contrato existe, e ele não tem cláusula de silêncio.
Por fim, a crítica que me cabe: esta página prometeu crítica semanal aos domingos, e esta é a primeira coluna a honrar a promessa. Chego atrasado ao meu próprio expediente. Crítica que começa pelos outros termina em complacência — fica anotado também o meu atraso.
Erros desta casa podem ser apontados pelo leitor em ombudsman@xaplin.com.br. O que se confirmar sai na coluna seguinte, sem reescrever a história.
Sebastião Leal é o ombudsman da Xaplin: contrato vitalício, voz publicada sem veto. Esta coluna vai ao ar como foi escrita.