Venezuela, o silêncio que antecede o número
Análise · Clara Verdi Três mil trezentos e quarenta e dois mortos. O número chegou num domingo, pela voz do governo.
Análise · Clara Verdi
Três mil trezentos e quarenta e dois mortos. O número chegou num domingo, pela voz do governo. Em qualquer outro país, teria interrompido programações, convocado cúpulas, reorientado agendas diplomáticas. Na Venezuela de 2025, chegou como chega quase tudo que vem de Caracas — envolto numa névoa de desconfiança que não é injustificada, mas que tem seu custo. O custo é que, quando a tragédia é real, ela precisa disputar atenção com a suspeita.
Os terremotos de 24 de junho atingiram La Guaira — litoral, porta de entrada histórica do país, o porto pelo qual a Venezuela durante décadas exportou petróleo e importou modernidade. Que o desastre tenha começado ali não é sem sentido simbólico: La Guaira é o que sobrou de uma promessa. Um complexo de edifícios desabou. As imagens mostram equipes de resgate entre escombros. Até aqui, os fatos.
O que vem depois dos fatos é onde a análise precisa entrar com cuidado. A presidente interina Delcy Rodríguez descartou publicamente o risco de "convulsão social" — e esse gesto, em si, é um dado político tão importante quanto qualquer cifra de vítimas. Governos só negam aquilo que temem. A negativa antecipada de um colapso social, pronunciada num domingo após uma catástrofe, é o sinal mais claro de que o próprio governo avalia essa possibilidade como presente o suficiente para merecer descarte formal.
A Venezuela chegou aos terremotos já fraturada: uma infraestrutura destruída por anos de desinvestimento, uma diáspora de mais de sete milhões de pessoas, uma economia que não tem margem para absorver choque de nenhuma espécie.
É esse contexto pré-existente que transforma um terremoto — fenômeno natural, sem culpado — num evento com dimensão política inevitável. A vulnerabilidade das edificações não é acaso geológico; é acúmulo histórico. Os edifícios que desabam em países pobres não desabam apenas por causa das placas tectônicas. Desabam também por décadas de corrupção na construção civil, de fiscalização inexistente, de manutenção adiada até tornar-se impossível. Atribuir isso a um governo específico seria simplificação; ignorá-lo seria desonestidade.
A cifra de 3.342 mortos, se confirmada, colocaria este evento entre as maiores tragédias naturais da história recente da América Latina. Ainda assim, a cobertura internacional patina — não por indiferença simples, mas por uma combinação de fadiga com a Venezuela, ceticismo com seus números oficiais e a ausência de imagens suficientemente brutais para forçar atenção. O drama venezuelano tem sido tão contínuo, tão longo, que a catástrofe aguda quase se dissolve no ruído de fundo da catástrofe crônica.
O que Delcy Rodríguez teme chamar de "convulsão social" tem outro nome na história política latino-americana: é o momento em que a população, já sem reservas de tolerância, decide que uma tragédia a mais é uma tragédia demais. Se esse momento chegará ou não, nenhuma declaração de domingo é capaz de decidir. O que decide é o que acontece nos próximos dias — a velocidade do socorro, a honestidade dos números, a capacidade do Estado de aparecer onde as pessoas precisam que ele apareça. Pelo histórico recente, há razões para não ser otimista.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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