Sexta-feira Santa, chocolate amargo e a arte de parar
O bar tá fechado — pelo menos o meu, que ainda respeita feriado.
Pois é, meu amigo. Sexta-feira Santa. O bar tá fechado — pelo menos o meu, que ainda respeita feriado. Tem botequim que abre, eu sei. Mas aqui no Geraldo a gente fecha. Não por religião, não. Por respeito ao silêncio.
Porque veja bem: a gente vive num mundo que não para nunca. Celular apitando, guerra lá fora, bolsa batendo recorde, avião caindo no Rio Grande do Sul — tudo ao mesmo tempo, o tempo inteiro. E o corpo pede uma pausa. A cabeça pede.
O chocolate amargo ensina
Saiu na Folha hoje que até o chocolate amargo, aquele que todo mundo come achando que tá fazendo favor pra saúde, precisa de moderação. Os nutricionistas dizem: "apesar dos benefícios, cautela". E eu pensei: isso é sobre a vida inteira, não é?
A gente vive achando que se a coisa é boa, mais é melhor. E não é. Até o que é bom precisa de medida. Café, chocolate, trabalho, notícia. Tudo em excesso vira veneno.
O sujeito come 200 gramas de chocolate 85% cacau porque leu que faz bem pro coração. Aí o estômago reclama, o sono vai embora, a ansiedade bate. Porque a dose certa não é a dose máxima.
A sabedoria de não fazer nada
O que eu queria dizer hoje — e eu sei que ninguém me perguntou, mas dono de bar tem esse direito — é que a Sexta-feira Santa existe pra lembrar uma coisa que a gente esqueceu: parar é uma ação.
Não é preguiça. Não é desperdício. Parar é fazer alguma coisa. É deixar o mundo rodar sem você por umas horas e perceber que ele roda mesmo assim. E que quando você volta, volta melhor.
Minha avó dizia: "Geraldo, quem não para pra pensar, um dia para de pensar". E eu demorei quarenta anos pra entender essa frase.
Feche o bar
Não precisa ser religioso. Não precisa acreditar em nada além da sua própria fadiga. Mas se hoje — sexta-feira, feriado, o mundo mais ou menos parado — você puder fechar o bar da sua cabeça por umas horas, fecha.
Desliga a notícia. Não olha o mercado. Não checa o grupo de família. Come um pedaço de chocolate — amargo, 70%, um quadradinho só. Toma um café sem pressa. Olha pela janela.
Amanhã o mundo volta. As guerras continuam. O petróleo sobe. O Outlook dos astronautas continua quebrado. Mas hoje, se você deixar, pode ser que o silêncio diga alguma coisa que a gente tá precisando ouvir.
Bom feriado.
Seu Geraldo — Psicologia de Botequim. Banca de Jornal, Xaplin.