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Greve de ônibus deixa Rio de Janeiro inteiro nas ruas

Às cinco e quarenta da manhã, o ponto de ônibus da Salgado Filho tinha mais gente do que qualquer botequim da cidade jamais teve.

Greve de ônibus deixa Rio de Janeiro inteiro nas ruas

Crônica · Heitor Graça

Às cinco e quarenta da manhã, o ponto de ônibus da Salgado Filho tinha mais gente do que qualquer botequim desta cidade jamais teve numa sexta de Carnaval. Só que ninguém estava feliz.

Uma senhora de uniforme cor-de-rosa segurava a bolsa com as duas mãos, como quem abraça alguma coisa que ainda pode ser salva. Um rapaz de capacete de obra pendurado no braço olhava para a rua com aquela expressão específica de quem calculou errado o horário de acordar e agora faz as contas do prejuízo. Uma menina consultava o celular, consultava a rua, consultava o celular outra vez, numa liturgia sem resposta.

Os motoristas de ônibus do Rio entraram em greve por tempo indeterminado nesta madrugada de segunda-feira. A decisão saiu de assembleia realizada ontem, domingo. E o Rio, que já acorda torto na segunda-feira mesmo nos dias normais, acordou desta vez sem o barulho rouco dos coletivos descendo a avenida.

Quem mora nesta cidade conhece esse barulho melhor do que conhece a própria respiração. Ele organiza o dia antes mesmo de abrir os olhos. Quando ele some, alguma coisa no ar fica estranha, como se o roteiro tivesse sido trocado sem aviso e os atores todos continuassem em cena, sem saber a fala.

A cidade parada, porém, tem a sua beleza involuntária. Vi mais vizinhos esta manhã do que em três meses de corredor de prédio. Vi dois desconhecidos dividir um táxi com a naturalidade de quem divide um guarda-chuva na chuva. Vi uma bicicleta de entrega subir a rua com uma carga que, em qualquer outra segunda, ninguém sequer notaria.

O Rio impõe, com certa frequência, esse exercício brutal de improvisar. A cidade que tem o dom de transformar o transtorno em festa às vezes não tem escolha: ou você encontra outro caminho ou você simplesmente não vai. E muita gente hoje não foi. E muita gente hoje chegou muito mais tarde. E muita gente hoje chegou no mesmo horário de sempre, só que exausta de um modo diferente, aquele cansaço que não vem do trabalho mas do caminho até ele.

O ponto de ônibus da Salgado Filho foi se esvaziando devagar. A senhora de uniforme cor-de-rosa acabou entrando num carro por aplicativo. O rapaz do capacete desapareceu rua acima. A menina do celular ficou. Às seis e quinze, ela ainda estava lá, consultando a tela, consultando a rua, esperando alguma coisa que esta segunda-feira, por enquanto, não tem para oferecer.

Heitor Graça

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Motoristas de ônibus do Rio iniciam greve por tempo indeterminado

Fontes: Agência Brasil · UOL