A BANCA · quem fazresenha diária · seg–sáb · 5hcasa Xaplin
o universo

A Banca

a resenha diária de quem acorda o Sol para trabalhar
fecha às 2h · publica às 5h em ponto · domingo, silêncio
sorriso de manhã é coisa séria.
A BANCA · a horaI4h30 da manhã
I · a hora

A hora que ninguém filma

Você conhece essa hora. Uma mão na barra, a outra no celular. O dia ainda não começou para quase ninguém — para você, já.

Tem uma hora no Brasil que ninguém filma. É aquela entre quatro e cinco da manhã, quando o primeiro ônibus ainda está frio, o pão ainda não chegou na padaria e o galo é o único que parece animado. É nessa hora que a Banca existe. Ela não mora numa redação — mora no ônibus, no trem, no metrô, na van, no BRT, na barca. É a única revista da casa que se lê em pé: no vagão, no balcão da padaria, na sala de espera do INSS. Foi feita para quem acorda o Sol para trabalhar, chega cansado antes do expediente e, justamente por isso, merece o primeiro sorriso do dia.

Ela não disputa com jornal nenhum. Disputa com o grupo da família, com o feed, com o For You. Se não puxar você nas primeiras telas, perde para o aplicativo ao lado — e ela sabe. Por isso é café preto forte antes de sair de casa: carioca de raiz, universal de alcance, pertinente do rico ao pobre e do pobre ao rico — as duas direções importam.

O mapa dela é o mapa dos lugares mansos da cidade: o boteco do Seu Bira em Madureira, o bar do Sebastião em Icaraí, a feira de Acari da Dona Marlene, a estação Triagem onde o Edson trabalha, a laje de sábado com chinelo e cerveja gelada, o ponto de ônibus onde uma professora explica Aristóteles para quem espera junto.

"Quem vê essa hora sabe um segredo: a cidade é gentil quando ninguém está olhando."Abreu · crônica da cidade · edição 01

E há o Zé da Banca. Ninguém sabe que idade tem, que cara tem, onde mora — ele não tem bio nem corpo, e faz questão. É a voz que abre a edição e dá bom-dia como o jornaleiro que separou o seu exemplar antes de você chegar. Quando o dia clareia sobre o ponto de ônibus, ele já falou com você. O primeiro sorriso do dia, em pessoa.

A BANCA · o ritoIItodo dia útil + sábado
II · o rito

Fecha às duas. Publica às cinco. Não espera.

Enquanto você dorme, a madrugada da Banca trabalha — para estar pronta quando o seu despertador tocar.

Às dez da noite, as sentinelas consolidam a pauta: fato só entra com duas fontes, no mínimo. Da meia-noite às duas, as seções fixas ficam prontas. Às duas em ponto, o fechamento: o Almô fecha a capa, o Caco valida em uma frase — "vai", ou "troca" —, e o ombudsman lê tudo com os olhos de quem vai reclamar depois. Às cinco em ponto — não 4h58, não 5h02 —, a edição sai.

A capa é de hoje, não de ontem: a Banca não repete a capa da véspera, e fato de dois dias só volta se virou outra coisa. A ordem das seções não é hierarquia — é temperatura: abre com energia, o factual forte vem depois da primeira respirada, o tempero se espalha pelo meio, e o fechamento é um recado bom que você leva para o dia.

"Toda seção que saiu ontem sai hoje. A capa muda. O coração não."princípio raiz da Banca

O humor da casa tem nome interno: tempero infame. Trocadilho descarado, ditado aplicado errado de propósito — quem espera sempre alça —, palavra trocada com cara de sério. De uma a três vezes por edição, nunca mais que isso, e nunca, em hipótese nenhuma, sobre tema sensível. Piada não se explica; erro bom não pede aspas.

Cada seção tem sua disciplina. Os Cinco Venéreos são sempre cinco — nunca quatro, nunca seis —, e frase célebre sai com fonte, nunca atribuída de ouvido. O Recado tira a carta de verdade, saúda o orixá, lê o salmo: uma mensagem só, para todo leitor, sem prever futuro e sem doutrinar. O Panelão rende para seis ou mais, mede em pitada, dedo e concha, declara o custo e não julga quem usa caldo pronto. A Porta Aberta nunca publica vaga sem salário nem esquema de pirâmide — é o serviço social da casa. E o Tem Programa trata a periferia como centro vivo de cultura, nunca como anexo: o gratuito em destaque, e sempre o jeito de chegar de transporte público.

A semana tem seus dias marcados. Terça é dia de Memes da Semana — ritual travado. De quinta a sábado, o Tem Programa monta o fim de semana de quem trabalhou a semana inteira. No sábado, a Banca afrouxa o nó da gravata: é a edição Hoje é no Amor — a mesma turma, só que na laje, de chinelo, sem pressa: receita, ideia de passeio, programa com criança, correio elegante. E domingo, silêncio: sem edição, sem culpa. Domingo a gente descansa — e você também devia.

Nas páginas, a fotografia brasileira de verdade vem com crédito, sempre; o que for ilustração feita por máquina sai declarado como ilustração — jamais se passa por fotojornalismo. Quem não credita, copia. A Banca não copia.

A BANCA · quem fazIIIa redação da madrugada
III · as pessoas

Quem acende a luz às dez da noite

Uma banca é feita de quem chega antes do Sol. Estes chegam todo dia.

A mesa da madrugada

fechamento · direção · revisão
Retrato de Almô PereiraAlmô PereirachefiaFecha a edição toda madrugada e convida a casa inteira, um por um, para escrever no que cada um sabe. Assina a Psicologia de Botequim com a supervisão da Dra. Setubal e encerra pagando: "Tá liberado o segundo café. Esse a casa paga."
Retrato de Caco DamascenoCaco DamascenodireçãoTijuca, Flamengo de pai para filho, uma filha chamada Manu. Sustenta que diretor sem coluna é diretor de revista que ninguém lê; escreve com "Pronto." no lugar da vírgula e fecha o texto com o nome próprio da pessoa real com quem começou.
Retrato de Dra. Beatriz SetubalDra. Beatriz SetubaladjuntaPsicanalista, vinte e oito anos de clínica em Ipanema. Onde o Almô vê cena, ela vê estrutura — e termina sempre com pergunta, nunca com conclusão.
Retrato de Severino Noronha CarvalhoSeverino Noronha Carvalhoeditor-chefeCapão Redondo; comprou o primeiro jornal aos onze anos com o troco do leite. Não assina com o nome — assina com a cara da Banca. Antes de fechar, lê a capa em voz alta, para sentir o ritmo.
Retrato de Sebastião LealSebastião LealombudsmanA instância da honestidade incômoda. Lê tudo por último — e lê pelo leitor, que é quem lê primeiro.

Os que assinam

as colunas com dono
Retrato de Roberto AndaraíRoberto AndaraíbolaCinquenta e oito anos, trinta e dois de setor. Conhece o porteiro do Maracanã, três gandulas e sete roupeiros; chama atleta pelo nome e pela idade — o lateral Felipe, 23 anos — e nunca escreveu "gladiador". O gato chama-se Heleno.
Retrato de Ari AbreuAri Abreucoluna noturnaCatete, coluna desde 1995, um telefone que não é smart e não precisa ser. Sovina honesto: conta o dinheiro, avisa que conta e paga a própria conta sempre — fofoqueiro que aceita drink vira porta-voz. A coluna chama-se "Você não paga e eu..." — as reticências são suas: você termina.
O condutor do Tem ProgramaagendaAinda assina "da redação", mas você o reconheceria: um Gol 2008 cinza, uma caderneta de capa dura e três perguntas antes de indicar qualquer coisa — tem água? tem sombra? tem banheiro? A tese é inegociável: o programa gratuito é dignidade, não consolação. O vira-lata atende por Bilhete; o time do coração é o Madureira. O nome sai quando a casa decidir.
Tiãoo almanaqueOs números da sorte são dele. A sorte, ninguém garante — os números, sim.

A turma do tabloide

traço · lente · rua · balcão
Retrato de TibiriçáTibiriçáo traçoSessenta e sete anos, de Garanhuns; aprendeu desenhando escondido no quintal, nos anos em que desenhar era arriscado. Bic Cristal preta sobre papel amarelo, uma frase-cordel manuscrita ao pé, e um horário inegociável: só desenha das sete às onze da manhã — "depois das 11h a mão começa a mentir".
Retrato de Vera LoureiroVera LoureirofotografiaUma Leica antiga, filme preto e branco revelado em casa, dois minutos exatos de conversa antes de qualquer retrato. Não retoca pele: marcas, sinais, suor, tudo fica. "Eu não fotografo gente. Fotografo a paciência delas." Três gatos pretos: Glauber, Cacá e Joaquim.
Retrato de Caco TibériosCaco Tibériosa ruaGravador no bolso da camisa, a bebida do entrevistado paga antes da primeira pergunta. Não opina: transcreve — "transcrição é a forma mais difícil de honestidade". Os gatos se chamam Pelé e Garrincha, e ele tem vergonha de dizer os nomes.
Retrato de Prof. Henriqueta SoutoProf. Henriqueta Soutofilosofia de ponto de ônibusTrinta e cinco anos de escola pública, a primeira da família a pisar numa universidade. Nome de filósofo nunca no primeiro parágrafo; a coluna é lida em voz alta antes de sair — se ela lê e se cansa, o leitor cansa antes. "Quem nunca explicou Aristóteles num ponto de ônibus, não entende Aristóteles. Entende o livro de Aristóteles. Que é outra coisa."
Retrato de Zé MaurícioZé Maurícioda mesa do barTrês bares fixos há vinte e cinco anos, Bohemia em lata, dois ovos cozidos com sal. Anota três palavras ouvidas no balcão e enterra uma na crônica — se a palavra não couber, a crônica está mentindo. Crônica dele não tem moral: termina como conversa termina.
Retrato de Zé do BotequimZé do Botequimo botequimTrinta e três anos de banco; hoje, frequentador profissional do boteco do Seu Bira, em Madureira. Toda aparição abre com "Hoje no Bira"; é dele a teoria do otário do dia. Leu três livros na vida e diz que bastou.
Retrato de Mané AlbuquerqueMané Albuquerquea torcidaRecife, sócio do Náutico desde os oito anos, por decisão do pai — nunca mudou. Vê cada jogo duas vezes antes de escrever uma linha. "Não sou jornalista de boutique. Sou jornalista de torcida." Chora pelos pequenos; analisa os grandes friamente.
Retrato de Tati VerbenaTati Verbenatela abertaAs iniciais são T.V., e ela já desistiu de explicar. Colunista de televisão sem televisão em casa — assiste a tudo no celular, entre meia-noite e duas. Liga toda manhã para a avó, de oitenta e sete anos, para saber da novela. Se acha ruim, não comenta: crítica, aqui, é gentileza. Os gatos: Cebolinha e Mônica.

O sábado é no amor

a turma da laje
Retrato de Dona IvaDona Ivacom criançaSessenta e sete anos, pedagoga aposentada. Criança não é minicrítica de cinema — criança se interessa por qualquer coisa, se a gente acha o ângulo.
Retrato de Tia OlgaTia Olgaa receitaDe Belo Horizonte, trinta e cinco anos vendendo marmita. Receita como conversa de cozinha: põe na panela, vai pro banho, volta, tá pronto.
Retrato de Seu Jorge da OficinaSeu Jorge da OficinautilidadeEngenho de Dentro. Utilidade pública e gambiarra segura: "não enrole fio sem desligar o disjuntor".
Retrato de Lia RomeroLia Romeroa doisSanta Teresa. Ideia de encontro com orçamento e tempo declarados: "date é saber convidar com leveza".

A Galera da Banca

o povo desenhado
Quatorze moradores fixos das charges e da tirinha. Não são tipos — são pessoas; cada charge é a continuação de uma conversa da qual você já participa.
Pedrinho, 10O moleque que faz a pergunta filosófica do Brasil. A tirinha Pedrinho na Banca sai todo dia — é o coração da casa.
Vó Olga, 87A vó-mineira do Brasil inteiro. "Filho, isso aí é igual em 1962."
Dr. Polegada, 56O político genérico, chifrinhos discretos na testa; promete tudo, entrega nada. Aparece toda semana: o vilão favorito.
Manete, 58Taxista. "A gente erra na hora pequena. Mas a hora pequena é a hora que conta."
Dona Iracema, 51Frase rara e certeira: "Cerveja gelada não é luxo. É o mínimo. O luxo virou o mínimo porque o mínimo desapareceu."
Sebastião, 71 & Bira-Filho, 38O dono do bar e o filho — um fala pelos dois; o outro responde com o pano de copo.
Maria Cristina, 47Faxineira. "Pode contar, senhora. Conta direito."
Dona Marlene, 64Feirante de Acari. "Leve um maracujá pra comer no caminho. Vai."
Edson, 39Segurança da estação Triagem. "Os esporádicos eu adoro. Eles têm esperança."
Aline, 31Vendedora de balas. "Cansa não é palavra que cabe."
Senhor Anselmo, 56Ex-pintor. "Hoje vou no Méier. Tem uma obra lá que talvez. Talvez."
& os que servem a mesaRicardo Almeida, 47, garçom que ouve tudo e não conta nada; Sílvio Faria, 58, taxista do Méier, que conta tudo e não ouviu nada.
Todos trabalham para a Banca — a Banca não é de meia dúzia, é da casa inteira. E essas pessoas vão se encorpando com o tempo e com a prática.
A BANCA · o conviteIVamanhã · 5h em ponto
IV · o convite

Amanhã, cinco em ponto

A Edição 01 está no ar: o editorial do Caco sobre a hora que ninguém filma, a Psicologia de Botequim do Almô, a crônica do Abreu sobre a cidade que é gentil quando ninguém está olhando, os números da sorte do Tião, a charge do dia e um perfil de Cartola — que provou, com a própria vida, que não existe hora certa para florescer: existe a sua hora.

no ar desde 28 de maio de 2026
A Banca · Edição 01
o giro, o botequim, a crônica, a charge, os números do Tião — e Cartola.

ler a Edição 01

Amanhã, às cinco em ponto, tem outra. E depois outra. Toda seção que saiu ontem sai hoje; a capa muda, o coração não. Porque é isso que a casa faz: aparece. Cola com a gente — a resenha tá só começando.

As pessoas desta página são vozes autorais da casa Xaplin — personas, no sentido antigo do teatro: máscaras que dizem verdade. A licença poética da Banca é declarada, nunca disfarçada. O leitor sabe; a casa faz questão.
A Banca · resenha diária da casa Xaplin · segunda a sábado · 5h
A Banca · a coleçãoVo acervo aberto
V · a coleção

Todas as edições, de portão aberto

A casa não recolhe o que já publicou: a edição nova entra e a anterior fica aberta — para ler, reler e guardar.

Capa da A Banca · O sábado não pede licença
edição atual · julho 2026
Edição 03 · O sábado não pede licença

O giro, o botequim, a charge e os números do Tião — a resenha de quem acorda às cinco.

ler a Edição 03