Tem uma conversa que eu ouço toda semana no ponto da Tijuca, entre gente que madruga igual a mim. É sobre o sábado. Não o sábado de quem dorme até as dez — esse é outro personagem, não é você. O sábado de quem está aqui às cinco é diferente: tem gosto de semana ainda, mas já carrega aquele alívio miúdo de saber que o pior do peso já foi. É um dia de dois andares. Você mora no térreo e já começou a subir.
Hoje a Banca chega com a edição três na mão. Três edições em três semanas — e nenhuma atrasou, nenhuma sumiu, nenhuma virou meia página. Digo isso sem vaidade, digo como quem assinou um trato e quer que você saiba que está sendo honrado. Jornal é contrato. Você aparece, a gente aparece. Simples assim, difícil assim.
Nesta edição tem coisa boa esperando pela sua atenção. Política sem gritaria, cidade com suas dobras e surpresas, cultura que não precisa de legenda pra fazer sentido. E tem o mundo lá fora, contado por quem entende que notícia é serviço, não espetáculo. Pode folhear sem pressa — ou com a pressa que o seu ônibus permite, que a gente sabe como é.
O que eu quero mesmo te dizer é o seguinte: julho está pela metade, o ano virou um bicho rápido, e é fácil deixar a semana passar sem se dar conta de que você atravessou coisas que mereciam mais de um aplauso. Esse aplauso é minha função aqui, toda manhã, neste espaço pequenininho de duas colunas. Vou continuar batendo palma sem cerimônia, porque cerimônia a esse hora não combina com ninguém.
Vai lá. O sábado é seu, do jeito que você quiser. Eu fico aqui, do lado desta página, na segunda que vem, às cinco em ponto, de volta ao posto.
Entrou aqui no balcão uma mulher na quinta-feira, olho fundinho, café na mão antes de eu perguntar se queria. Me disse assim, sem cerimônia: Almô, não aguento mais, mas me sinto mal de reclamar porque a vizinha passa por coisa pior. Deixei o pano no ombro e disse: minha senhora, cansaço não é campeonato. Não tem medalha pra quem sofre mais. Tem alívio pra quem se deixa descansar.
Repara o truque que a cabeça prega. Você trabalhou a semana inteira, dormiu mal, resolveu problema de filho, de chefe e ainda de alguém que não era nem responsabilidade sua. Aí chega no sábado, senta, e em vez de descanso vem culpa — a sensação de que parar é o mesmo que falhar. Isso tem nome no balcão: você trocou o cansaço real pela vergonha de ser humano. E aí cansa duas vezes.
A sabedoria do boteco diz: descansado é que faz. Mas boteco também vê o contrário todo dia — o homem que não para nunca, nem no domingo, porque parar parece desmoronar. Esse sujeito não é trabalhador exemplar. Esse sujeito está com medo. Medo de que, sem a correria, sobra tempo pra ouvir o que a cabeça estava tentando falar há meses. Correria é um volume alto pra cobrir o chiado que incomoda.
Então aqui vai o que o doutor de balcão receita neste sábado de julho: se você acordou cedo e já está se cobrando por não ter feito mais, para. Não como conselho de autoajuda, não como slogan de caneca. Para porque o seu corpo guardou a semana toda e agora apresenta a nota fiscal. Nota fiscal não é fraqueza — é contabilidade honesta. E contabilidade honesta é a base de qualquer coisa que preste.
O sábado é seu. O café também. E se alguém perguntar o que você está fazendo sem fazer nada, você diz que está fazendo exatamente o que precisa — e manda o recado do Almô.
A Dra. Beatriz Setubal, que supervisiona esta coluna, deixa a pergunta no pires antes de você ir: quando você diz que está com preguiça, você verificou primeiro se não está, na verdade, simplesmente no limite — e quem te ensinou que esses dois são a mesma coisa?
Doenças respiratórias: asma, bronquite e rinite se agravam no frio seco de julho. O SUS atende de graça — leve as crianças ao posto antes da crise virar internação. Inalação, receita de broncodilatador e orientação sobre umidificador do ambiente: tudo na unidade básica do bairro, sem custo.
Hipertensão e diabetes no frio: a pressão costuma subir no inverno porque os vasos contraem. Quem toma medicação diária não pode interromper por conta própria, nem trocar de dose sem médico. Em dúvida, o posto resolve — é só aparecer.
Dica de prevenção: janela aberta durante o dia renova o ar de casa, reduz mofo e ajuda o pulmão de todo mundo. Não custa nada e o efeito é real.
O que a lei diz: o vale-transporte é direito do trabalhador com carteira assinada para cobrir o deslocamento casa–trabalho–casa no trajeto que ele declarar. A empresa paga a parte que exceder 6% do salário bruto do empregado.
Se você mudou de endereço: comunique por escrito ao RH. O benefício segue o trajeto real, não o do contrato antigo. Guarde o protocolo da comunicação.
Se a empresa recusa ou desconta errado: o Ministério do Trabalho tem canal gratuito em trabalhador.gov.br — você abre reclamação sem precisar de advogado. Anote datas, valores e salve os contracheques.
O Centro de Referência de Assistência Social existe em todos os municípios brasileiros e é gratuito. Ele orienta sobre Bolsa Família, BPC, inscrição no CadÚnico, encaminhamento pra creche e abrigo emergencial — tudo em um só endereço. Quem ainda não se cadastrou no CadÚnico perde acesso a uma série de benefícios sem saber. Basta levar RG, CPF e comprovante de residência. O 156 informa o CRAS mais próximo da sua casa.
Tem jogo que a gente assiste com o coração acelerado e jogo que a gente assiste com o lápis na mão. A vitória da Espanha sobre a Bélgica por 2 a 1, nesta sexta-feira (10), foi das duas espécies ao mesmo tempo. Com o coração: a Bélgica abriu o placar, a Espanha levou o primeiro gol desta Copa depois de cinco jogos com a defesa fechada — e mesmo assim virou. Com o lápis: a virada espanhola veio depois que Senne Lammens, goleiro reserva que entrou no lugar do titular Courtois aos 26 minutos do segundo tempo, falhou no lance que definiu o 2 a 1. Jovem, estreante em Copa, numa hora dessas — é o peso que o futebol distribui sem pedir licença. Ninguém passa por isso sem cicatriz. A Espanha, por sua vez, está na semifinal pela primeira vez em 16 anos. Isso é resultado, não sorte.
E então tem a França. Meu avô dizia que time favorito é igual bonde: sempre tem um na esquina. Pois bem, a seleção de Didier Deschamps já garantiu a semifinal contra a Espanha na terça (14) e ainda pode encerrar esta Copa com marcas que vão ficar nos livros. Dois jogos pela frente, pelo menos. O detalhe curioso desta Copa toda é que nem os pênaltis estão saindo limpos: Kylian Mbappé perdeu uma cobrança na vitória por 2 a 0 sobre o Marrocos nas quartas — a tal da paradinha, que virou discussão de especialista e de botequim ao mesmo tempo. Mbappé errou, a França ganhou. O futebol não simplifica.
Mas o sábado não é só Copa. Na sexta (10), em Osaka, o Brasil feminino de vôlei derrubou a Polônia por 3 sets a 1 — parciais de 25/20, 23/25, 25/23 e 28/26 — e carimbou antecipadamente a vaga na fase final eliminatória da Liga das Nações. Nono triunfo no torneio, segundo consecutivo nesta etapa. É um time que corre, que briga set a set e que não entrega nem quando o adversário empata o marcador. O Brasil feminino de vôlei tem o hábito de vencer em silêncio. A Banca faz questão de falar em voz alta.
Uma nota de serviço antes do fim: quem tem alguém na família de olho no ITA, o prazo de inscrição para o vestibular de 2027 encerra neste domingo (12), até as 23h59, pela internet — taxa de R$ 195,00. Futebol e engenharia aeronáutica: dois campos em que o brasileiro insiste em aparecer quando ninguém aposta. Não é à toa.
Quartas encerradas: Espanha 2 x 1 Bélgica, sexta (10) · França 2 x 0 Marrocos, quinta (09). Semifinais: França x Espanha, terça (14) · outra semifinal, quarta (15). Terceiro lugar: sábado (18). A final: domingo, 19 de julho, no MetLife Stadium. Todos os dias, esta página amanhece com os placares da véspera.

A abóbora cabotiá — aquela de casca verde-escura, pesada na mão — é uma das hortaliças que mais rendem por quilo em qualquer feira de inverno. Meio quilo de polpa já ocupa boa parte de uma panela média quando cozida. Esta receita usa cerca de 1 kg de abóbora, o que enche seis tigelas fundas com sobra pra alguém repetir. Os demais ingredientes são de despensa: cebola, alho, azeite, sal. O gengibre aparece em pequena quantidade — um pedaço do tamanho do polegar já dá conta. Preço varia de feira pra feira; o rendimento, esse não muda.
Dica de quem conhece o fundo da panela: sopa aveludada dura três dias bem tampada na geladeira e fica ainda mais encorpada no segundo. Esquente em fogo baixo, mexendo sempre — ela agradece o cuidado. Numa garrafa térmica larga, ela vai com você e aquece onde precisar.
O que aconteceu: a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou, em 10 de julho de 2026, a apreensão de lotes falsificados do Mounjaro — medicamento para diabetes tipo 2 que também é usado fora de bula para perda de peso. A ordem partiu depois que a própria detentora do registro identificou unidades no mercado com características físicas divergentes das originais.
Como identificar um produto suspeito: embalagem com cores desbotadas ou impressão borrada, número de lote ilegível ou ausente, bula com português torto, lacre violado ou que solta fácil demais. Na dúvida, não use — leve à farmácia e peça orientação antes de qualquer injeção.
Onde comprar com segurança: farmácias com CNPJ ativo e autorização sanitária estadual. O site da Anvisa (consultas.anvisa.gov.br) permite checar se o estabelecimento tem licença válida — é gratuito e leva menos de dois minutos. Compra por redes sociais ou aplicativo de brechó não conta como canal seguro, independentemente de quão barato pareça.
Se você já comprou e suspeita: guarde a embalagem completa, anote onde e quando comprou e registre uma notificação na Anvisa pelo canal Notivisa ou pelo telefone 0800 642 9782. O registro ajuda a rastrear lotes e tirar produto falso de circulação.
Remédio não é mercadoria para pechinchar em canal duvidoso — e o barato que parece milagre quase sempre é falsificação embrulhada em papel de promessa. A regra de ouro continua valendo: primeiro confirme a origem, depois abra a carteira. Saúde e dinheiro agradecem na mesma medida.
E falando em bolso: sem calendário de pagamento confirmado para esta edição, vale repetir o princípio que não tem data de validade. Mês apertado tem hierarquia: comida, moradia e luz chegam antes de qualquer parcela. Negociar dívida de cabeça fria e barriga cheia sempre sai mais em conta do que negociar no sufoco — o credor também sabe disso, por isso espere o momento certo para sentar à mesa.
Ken é a montanha parada sobre a montanha. No I Ching, o livro de sabedoria mais consultado do mundo há milênios, esse hexagrama não fala de fraqueza nem de recuo — fala de stillness, aquela pausa deliberada que antecede o movimento certo. A montanha não fugiu do vento: ela ficou onde estava e deixou o vento passar. Pra um sábado de julho, em que o fim de semana empurra a gente pra resolver tudo de uma vez, esse recado chega na hora.
Parar não é o mesmo que desistir, e a montanha entende isso melhor do que ninguém. Você acordou cedo — e sábado de manhã cedo já é um ato de fé — com alguma decisão pesando no peito. Talvez uma conversa que ficou pra depois, um plano que espera luz verde, uma mágoa que quer virar palavra. O hexagrama diz: não hoje, não agora, não antes de sentar um instante com você mesmo. A pressa nesse momento gasta o dobro e rende a metade.
Seja qual for a sua fé — e nesta Banca cabe todo mundo, do terreiro à igreja, da mesquita ao centro espírita, de quem faz oração a quem só respira fundo —, a pausa antes do passo é linguagem universal. No candomblé se diz que Oxalá não tem pressa. No catolicismo, o silêncio é berço de todo discernimento. No budismo zen, o monge senta antes de agir. Todos falam a mesma coisa com palavras diferentes: espera um triz e o triz te devolve mais do que você tinha.
Então o recado pra hoje é este: antes de mandar a mensagem, respira. Antes de fechar o negócio, dorme uma noite. Antes de dizer que sim ou que não, pergunta ao seu corpo como ele está. A montanha não vai a lugar nenhum — e justamente por isso ela ainda está lá quando você precisa se apoiar.
Bom dia de sábado. Que a sua pausa de hoje seja o chão firme de amanhã.

Elis Regina Carvalho Costa nasceu em Porto Alegre em 17 de março de 1945. Filha de família simples, cantava em rádio antes de ter idade pra assinar contrato. Aos quinze anos era a mais nova contratada da Rádio Farroupilha; aos dezoito, havia ganho o Festival Internacional da Canção Popular de São Paulo e deixado a capital gaúcha pra trás — não porque fugiu, mas porque o país todo precisava ouvi-la.
No Rio e em São Paulo, construiu a carreira com uma combinação que ainda desconcerta: técnica de conservatório e entrega de quem vai fundo sem calcular o custo. Interpretava Milton Nascimento, Tom Jobim, Ivan Lins e Taiguara com a mesma convicção — não escolhia canção pelo prestígio do autor, escolhia pela verdade que encontrava dentro dela. Em 1974 gravou com Tom Jobim o disco Elis & Tom, que entrou para a história da música brasileira como um dos encontros mais felizes já registrados em estúdio. Quem ouve até hoje entende sem precisar de explicação.
Fora do palco, a vida era mais irregular. Casou, descasou, criou três filhos, enfrentou momentos difíceis com a mesma intensidade que colocava na voz. Não era personagem: era pessoa, com o que isso tem de bom e de complicado. Durante os anos da ditadura militar, pisou em palco patrocinado por órgão do governo numa noite de 1968 e arrependeu-se disso publicamente depois — o que não era obrigação de ninguém, mas era do feitio dela: encarar o que é difícil de frente.
Morreu em 19 de janeiro de 1982, em São Paulo, aos 36 anos, de overdose acidental de cocaína combinada com medicamentos. Tinha mais de vinte discos gravados e uma plateia que nunca havia pedido que ela diminuísse o volume. Deixou três filhos — João Marcello, Pedro e Maria Rita, que seguiu a música e ganhou seus próprios palcos.
A lição, sem moralismo: há gente que vive menos anos e ocupa mais espaço do que a maioria consegue em vida dobrada. Não é sobre quantidade. É sobre presença — aquela que você sente mesmo quando a música já acabou e o silêncio ainda guarda o eco.
Sábado à noite tem uma gramática própria. Não é a urgência do futebol de domingo, não é a ressaca lenta do domingo — é o meio do caminho, o momento em que a cidade decide se vai sair ou vai ficar, e metade dela fica. E quem fica, liga a televisão. Sempre. Isso acontece desde que existe televisão no Brasil, e nenhum algoritmo conseguiu desmontar esse hábito porque ele não é racional: é social, é do corpo, é do sofá que já guarda o formato de quem senta nele toda semana no mesmo horário.
A TV aberta entendeu isso antes de todo mundo e nunca deixou de explorar. O sábado é o dia em que a programação se arma pra reter família inteira — avó, neto, vizinha que entrou pra pegar um açúcar e ficou até o intervalo. Nenhuma plataforma de streaming foi projetada pra esse grupo. O streaming é escolha individual; o sábado na tela aberta é negociação coletiva, aquela em que ninguém manda e todo mundo opina sobre o que vai ver. Democracia direta, com controle remoto.
Tem uma coisa que o boteco e a sala de casa partilham nessa noite: o volume errado. No boteco é alto demais, na sala é baixo porque alguém adormeceu na poltrona. Nos dois lugares, a imagem é a mesma — e é justamente aí que a tela coletiva ancora sua força. Não importa tanto o que está passando: importa que está passando pra todo mundo ao mesmo tempo, e amanhã de manhã tem assunto no mercadinho, na fila do pão, na mesa do café. A TV aberta ainda fabrica essa moeda comum, esse assunto partilhado que faz a conversa começar sem apresentação.
Então, se você está lendo isso num ônibus às cinco da manhã de sábado, já sabe o que vem pela frente: uma noite em que a tela vai ser mais do que entretenimento. Vai ser a desculpa pra sentar junto, discordar com carinho, roubar o controle e perder a briga. A TV do sábado nunca prometeu arte — prometeu companhia. E até agora não quebrou a promessa.
Tem semana que a caderneta não fecha com endereço novo. Nenhum evento gratuito que eu tivesse pisado antes de escrever. Poderia inventar uma programação — data, hora, nome de artista — mas essa coluna tem uma regra que não dobra: portão fechado sai da caderneta, não da cabeça. O que sai da cabeça é publicitário. Isso aqui é serviço.
Então o programa de hoje é o que sempre esteve aí, atemporal e sem ingresso: a praça pública do seu bairro. Não a praça genérica, não o conceito — a praça que você passa todo dia sem entrar, porque sempre tem uma pressa na frente. Julho de manhã cedo é frio, mas o sol de inverno no Rio tem aquela qualidade de luz que fotógrafo paga caro pra imitar. Você tem de graça, das seis da manhã em diante, sentado num banco de concreto que não cobra nada.
A mesma lógica vale pra biblioteca pública municipal mais perto da sua casa. Acervo aberto, leitura no local sem cadastro na maioria das unidades, e o silêncio que você não encontra em lugar nenhum sem pagar. Se você mora no Rio, a Biblioteca Parque da Rocinha, a Biblioteca Parque de Manguinhos e a Biblioteca Parque Estadual (no Centro) são equipamentos permanentes de padrão internacional, com Wi-Fi, ar-condicionado e acervo infantil — funcionamento em dias úteis, confirme o horário da unidade pelo site da Secretaria de Cultura antes de sair.
E se você mora perto do mar, a praia em julho de manhã tem uma vantagem que julho esconde: está vazia. Não é o dia de sol de verão nem o feriado cheio — é o sábado com vento fresco, areia comprida e espaço pra andar sem desviar de guarda-sol. A perna descansada, o horizonte lá na frente e o café que você trouxe na garrafa térmica. Programa sem portão porque a natureza não cobrou entrada ainda — e que continue assim.
Semana que vem a caderneta pode voltar com endereço, hora e nome confirmado com o próprio pé. Por ora, Joaquim Santana assina embaixo do que sabe: o melhor programa gratuito de um sábado de julho às vezes já mora no quarteirão de casa. É só sair antes de a pressa chegar.
Às cinco em ponto da manhã, quando o celular ainda tenta convencer você de que é hora de dormir, a Rua do Comércio — qualquer rua do comércio, de qualquer cidade que se preze — já tem uma mulher varrendo. Não a varredeira da prefeitura, com colete e carrinho. Essa é a dona do ponto, a que chegou antes da guarda municipal e antes do padeiro. Ela nem é funcionária de nada: é inquilina de si mesma, que paga o aluguel em suor antes do amanhecer.
Eu a vi numa sexta de julho, com o frio fazendo o asfalto brilhar como se tivesse engraxado. Ela varrendo a calçada da loja que abre às oito — a loja que ela não é dona, mas cujo metro quadrado de frente ela zela como se fosse herança. Balde com água de sabão, vassourinha de palha, rodo de cabo longo. O método: molha, esfrega, empurra a água suja pra boca do bueiro com a precisão de alguém que já fez isso talvez oito mil vezes. Nenhum movimento sobrando, nenhum desperdício de braço.
Perguntei se ela era daquela loja. Ela ergueu a cabeça, me avaliou com o olho de quem já viu muito jornalista curioso e nenhum resultado, e disse que não — era da loja ao lado, mas o dono da outra era doente e alguém tinha que cuidar. Nada mais. Voltou pro rodo. Aquela resposta caberia numa crônica inteira, mas ela já tinha dito tudo: a solidariedade de calçada não pede manchete, não espera câmera, não combina horário. Ela simplesmente acontece antes que a cidade acorde pra fotografá-la.
Fiquei observando enquanto o balde trocava de cor — saiu limpo, voltou cinza, foi limpo de novo na torneira do poste que alguém improvisou décadas atrás e nunca ninguém removeu. O frio foi cedendo um grau, depois outro. Quando o primeiro ônibus passou, a calçada já estava seca e cheirando a sabão. Os primeiros pedestres pisaram nela sem olhar pra baixo, como quem pisa em chão que sempre foi limpo. Esse é o trabalho que não aparece: o que já foi concluído quando você chega.
Antes de ir embora, perguntei o nome. Ela disse: Conceição. E voltou pro balde sem a menor cerimônia, porque o segundo trecho de calçada não se varre com entrevista. Eu, que pago minha conta desde 1995 e não aceito romantizar trabalho duro — mas também não aceito fingir que não o vejo — fui embora pensando que os relógios da cidade não estão nas torres nem nos celulares. Estão nas mãos da Conceição, que bate o ponto no único horário em que ninguém mente: quando ainda está escuro e a rua precisa de alguém.
O que é: o vestibular do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, uma das engenharias mais concorridas e respeitadas do país — formação pública, de excelência, sem mensalidade.
Quanto custa a inscrição: R$ 195,00 de taxa, paga no ato do cadastro.
PRAZO: inscrições encerram amanhã, domingo, 12 de julho de 2026, às 23h59. Exclusivamente pela internet, nos canais oficiais do ITA. Depois desse horário, a porta fecha — sem prorrogação anunciada.
Não tem jeito mais honesto de começar: se você ou alguém que você conhece tem um estudante de olho no ITA, o prazo é amanhã à noite. Não na semana que vem, não depois do almoço de domingo — amanhã, antes da meia-noite. O vestibular do ITA é uma das poucas portas do país que abre pra engenharia de ponta sem cobrar mensalidade nenhuma nos anos seguintes. A taxa de inscrição de R$ 195,00 é o custo de hoje; o que vem depois, se passar, é de graça.
Agora, pra quem não tem esse vestibular específico na mira, a lição que o prazo de amanhã ensina vale pra qualquer concurso ou processo seletivo: prazo curto ativa a atenção que prazo longo adormece. Quando você tem um mês, adia. Quando tem vinte e quatro horas, age. Use esse gatilho a seu favor — toda vez que encontrar uma vaga com prazo longo, anote na agenda o prazo menos dois dias. Funciona como se o mundo estivesse sempre fechando amanhã.
E aqui entra o alerta que esta coluna repete sem vergonha: nenhum site, grupo de WhatsApp ou perfil de rede social vende inscrição facilitada, lista antecipada ou garantia de aprovação. A inscrição do ITA se faz no endereço oficial do instituto — ponto. Qualquer cobrança fora dali é golpe com nome bonito. Se alguém cobrou e sumiu, o caminho é o boletim de ocorrência e o Procon; o dinheiro é seu, não presente de quem jogou conversa fora.
Próximo sábado, outra porta. Por enquanto, esta fecha amanhã às 23h59 — e fechar porta por falta de clique é o único arrependimento que tem conserto antes de acontecer.
Na Edição 01 a gente apresentou a Banca. Na Edição 02 já tinha leitor de pé no corredor do ônibus rindo sozinho. A Edição 03 chega num sábado de julho, frio do jeito que frio gosta de ser, e duas conversas ficaram pendentes das páginas que vieram antes. A gente responde — sem enrolar.
A segunda voz aí em cima acertou em cheio: número sem nome de cidade e sem mês não informa, enfeita. A Banca anotou. Quando o dado vier confirmado com fonte, ele entra — com o mês, a cidade e a fonte na frente do número. Essa é a régua daqui.
Pessoa assinou esse poema com o nome de Álvaro de Campos, o heterônimo mais barulhento que ele inventou — e ainda assim a frase é das mais quietas que a língua portuguesa já produziu. Parece derrota, mas relê com calma: ela separa o que você tem do que você é, e descobre que o maior depósito fica do lado que ninguém taxou. Todo sábado carrega esse risco: a semana terminou, o fim de semana começa, e por dois dias o relógio da obrigação perde um pouco de voz. É a hora exata de checar o estoque interno — os sonhos que ficaram aguardando expediente. Não precisa agir hoje. Só precisa saber que eles estão lá. Boa manhã de sábado. O inventário que importa já está aberto.








