Quarta-feira de concreto
Crônica · Heitor Graça Da janela do meu apartamento em Copacabana, o dia se anuncia com a previsibilidade de sempre: o sol bate no prédio da frente…
Crônica · Heitor Graça
Da janela do meu apartamento em Copacabana, o dia se anuncia com a previsibilidade de sempre: o sol bate no prédio da frente, o porteiro varre a calçada, um vendedor de mate canta seu pregão. É uma coreografia antiga, que me tranquiliza. Lembrei, não sei por quê, daquele jogo de infância, de empilhar blocos de madeira para construir uma fortaleza. A graça era ver até onde a torre subia antes de desabar com um sopro.
O rádio, ligado baixo na cozinha, falou em blocos de concreto sendo arrastados por um guindaste na Maré. Não para construir, mas para bloquear. “Jerseys”, eles chamam, como se o nome importasse para a criança que não pôde ir à escola hoje por causa deles. A notícia informava, com a calma burocrática dos fatos, que a operação era para dificultar a passagem de caminhões roubados.
Fiquei pensando nesses blocos. No peso deles. Um objeto que não se move com um sopro. A intenção, dizem, é estratégica. A consequência, contudo, é outra. É o menino que acorda, veste o uniforme e ouve da mãe que a aula foi suspensa. É o médico que não pode fazer a visita domiciliar a um paciente acamado. Trinta e seis escolas e algumas unidades de saúde paradas por um rearranjo de peças cinzentas na paisagem.
A cidade tem dessas coisas. Um movimento em um ponto do mapa reverbera a quilômetros de distância, no silêncio de uma sala de aula vazia ou na ansiedade de quem esperava uma consulta. Não é uma fortaleza que se ergue, mas um labirinto que se adensa.
O sol agora esquenta o vidro da minha varanda. Daqui, o barulho é só o do trânsito familiar. Fico imaginando o som que faz um bloco de concreto sendo arrastado no asfalto. Deve ser um ruído grave, arranhado. O som de uma quarta-feira que não aconteceu como deveria.
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
Leia o factual: Operação da PM na Maré fecha 36 escolas e 2 unidades de saúde
Fontes: g1 · CNN Brasil
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.