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ONU deve votar uso de força no Estreito de Ormuz

, ao mesmo tempo, o sistema multilateral funcionando como deveria e o sinal mais claro de que o sistema multilateral já não funciona.

Coluna Beatriz Fonseca — Política

A ONU discutindo autorização para uso de força no Estreito de Ormuz é, ao mesmo tempo, o sistema multilateral funcionando como deveria e o sinal mais claro de que o sistema multilateral já não funciona. A contradição diz tudo sobre o momento.

O que está em votação

O Conselho de Segurança deve votar uma resolução que autoriza a formação de uma coalizão naval para garantir a livre navegação no Estreito de Ormuz. Na prática, é uma autorização para que navios de guerra americanos, britânicos e franceses escoltam petroleiros através do estreito — com ou sem a concordância do Irã.

O Irã respondeu como se esperava: prometeu retaliação. "Qualquer presença militar estrangeira não autorizada em nossas águas territoriais será tratada como ato de guerra", disse o chanceler iraniano. A tradução diplomática é simples: estamos dispostos a atirar.

Quando a ONU vota sobre uso de força e o país-alvo promete retaliação antes da votação, o resultado é irrelevante. A guerra já está decidida.

O veto previsível

Rússia e China têm poder de veto no Conselho de Segurança. Ambos são aliados do Irã, embora por razões diferentes. A Rússia quer os EUA atolados em mais um conflito. A China quer manter seu fornecimento de petróleo iraniano. Nenhum dos dois vai votar a favor da resolução.

O resultado provável é um veto duplo, seguido de uma "coalizão dos dispostos" — uma aliança militar ad hoc liderada pelos EUA, sem mandato da ONU, mas com o argumento da "legítima defesa do comércio internacional". É o modelo Kosovo, Iraque, Líbia. Já vimos este filme.

O que muda

Se a resolução for vetada e os EUA agirem unilateralmente, o precedente é perigoso. Cada vez que uma potência contorna a ONU para usar força, o sistema multilateral fica mais fraco. E num mundo cada vez mais fragmentado, enfraquecer o único fórum onde todas as nações têm voz — mesmo que essa voz seja frequentemente ignorada — é uma aposta arriscada.

O Irã sabe disso. Os EUA sabem disso. E ambos parecem dispostos a seguir em frente mesmo assim. A ONU, mais uma vez, corre o risco de ser palco de um teatro cujo desfecho já está escrito.

Beatriz Fonseca é colunista de Política & Sociedade da Xaplin