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Desafiando os EUA, Colômbia suspende pulverização em plantações

. Fumigação aérea, erradicação forçada, substitução de cultivos — Washington testou de tudo no solo colombiano.

Coluna Beatriz Fonseca — Política

A Colômbia sempre foi o laboratório favorito da política antidrogas americana. Fumigação aérea, erradicação forçada, substitução de cultivos — Washington testou de tudo no solo colombiano. Agora Bogotá decidiu que não quer mais ser cobaia.

O que aconteceu

O governo colombiano anunciou a suspensão da pulverização aérea com glifosato em plantações de coca. A decisão desafia diretamente os Estados Unidos, que pressionam a Colômbia há décadas para manter a fumigação como pilar central da guerra às drogas. Washington reagiu como sempre reage quando um aliado latino-americano desobedece: com "preocupação profunda".

Mas a decisão colombiana não é capricho ideológico. É pragmatismo. Décadas de fumigação não reduziram a produção de cocaína — apenas deslocaram plantações de uma região para outra e envenenaram comunidades rurais inteiras. O glifosato, classificado como "provavelmente cancerígeno" pela OMS, afetou agricultores, crianças, rios e solo.

Quando quarenta anos de uma política não resolvem o problema e criam outros dez, talvez o problema não seja a execução — seja a política.

A dimensão geopolítica

Esta decisão acontece num momento delicado. Com os EUA concentrados na guerra do Irã, a atenção americana na América Latina é mínima. A Colômbia aproveitou a janela. É diplomacia de oportunidade — e não é a primeira vez que a região usa as distrações de Washington para ampliar sua autonomia.

O México de AMLO já tinha dado passos semelhantes. A Bolívia de Evo, antes dele. Mas a Colômbia é diferente: é o aliado mais próximo dos EUA na América do Sul, sede de bases militares americanas, receptor de bilhões em ajuda militar. Quando a Colômbia desafia, o sinal é claro: até os amigos mais fiéis têm limite.

O que vem agora

A pergunta real não é sobre coca ou glifosato. É sobre soberania. A América Latina pode ter políticas próprias para seus problemas ou deve seguir receitas importadas que comprovadamente não funcionam? A Colômbia acaba de dar sua resposta. Resta ver se Washington vai aceitar — ou se vai lembrar que "preocupação profunda" é apenas o primeiro passo antes de "medidas concretas".

Beatriz Fonseca é colunista de Política & Sociedade da Xaplin