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Peça sobre Zuzu Angel estreia em Salvador com sessões acessíveis

A primeira montagem teatral dedicada à estilista que morreu durante a ditadura militar chega à cena brasileira 50 anos depois, com.

Peça sobre Zuzu Angel estreia em Salvador com sessões acessíveis
Bica. — Cultura & Arte **DEK:** A primeira montagem teatral dedicada à estilista que morreu durante a ditadura militar chega à cena brasileira 50 anos depois, com dramaturgia inédita e compromisso com acesso público. ---

O Fato

A peça "Eu, Zuzu Angel, agora milito" estreia nesta quarta-feira (15 de abril) no Teatro Martim Gonçalves, em Salvador, marcando a primeira montagem teatral dedicada integralmente à trajetória de Zuzu Angel. A produção chega ao palco 50 anos após a morte da estilista, ocorrida em 26 de abril de 1976, quando seu carro caiu da Estrada da Gávea, na saída do Túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro, durante o período da ditadura militar brasileira. A informação foi confirmada pela G1 nesta segunda-feira (14 de abril de 2026).

A dramaturgia é inédita e será publicada em livro ainda em abril pela editora Alameda. O teatro propõe sessões com acesso facilitado, incluindo preços reduzidos e horários que contemplem diferentes públicos. A escolha de Salvador para a estreia não é casual: a capital baiana possui forte tradição de produções sobre resistência cultural e histórica durante o período autoritário, além de ser um dos principais polos criativos do país nas artes cênicas.

Zuzu Angel (1921-1976) foi pioneira da moda brasileira, com trabalho reconhecido internacionalmente na década de 1960. Sua morte permanece envolta em controvérsias: a versão oficial classificou-a como acidente, mas investigações posteriores levantaram suspeitas sobre possível envolvimento de agentes da repressão. O filho de Zuzu, Hildegard Angel, desapareceu em 1971, vítima comprovada de tortura pela ditadura, levando a estilista a se envolver em ações de denúncia dos crimes contra direitos humanos. A peça traz essa dimensão política ao centro da narrativa teatral.

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A Análise de André Cavalcanti

A montagem de "Eu, Zuzu Angel, agora milito" responde a uma lacuna que deveria ter sido preenchida décadas atrás. Cinquenta anos de silêncio sobre uma mulher que unificou criatividade artística, coragem cívica e resistência política é sintoma de como a ditadura militar ecoou muito além de 1985 na cultura brasileira — inclusive no esquecimento seletivo.

O que torna este projeto relevante não é apenas a reabilitação da memória de Zuzu, mas o modo como a dramaturgia inédita se recusa a separá-la em compartimentos: a estilista brilhante de um lado, a mãe enlutada de outro, a resistente política de um terceiro. O título "agora milito" não é retórica vazia. Significa que a peça a devolveu ao presente como força viva, não como figura histórica embalsamada em manuais escolares.

Quando um teatro escolhe sessões acessíveis para contar a história de quem lutou contra o silenciamento, a forma se torna conteúdo: não há teatro de resistência sem a presença do povo.

A decisão de publicar a dramaturgia em livro amplia ainda mais o alcance. Dramaturgos brasileiros, grupos independentes, escolas podem agora retomar essa narrativa em seus próprios territórios. Zuzu deixa de ser propriedade de uma única produção para se tornar ferramenta cultural compartilhada. Isso é diferente de uma simples peça de sucesso — é um ato de desmercantilização da história.

Salvador como ponto de partida também comunica algo: não é o eixo Rio-São Paulo que define o que merece cena. A periferia criativa do país, onde a experimentação teatral permanece mais viva que em centros já capturados pelo mercado de entretenimento, é o lugar exato para uma obra que fala de resistência sem fazer concessões ao conforto das plateias abastadas.

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Cinquenta anos depois de uma morte que nunca foi plenamente explicada, Zuzu Angel finalmente recebe o palco que a ditadura lhe negou. A pergunta que fica para quem assiste é mais íntima: quantas outras histórias de criatividade e resistência ainda dormem no esquecimento, esperando por uma dramaturgia que as resgate?

André Cavalcanti — Cultura & Arte. Bica., Xaplin.