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Carlos Alberto Parreira enfrenta batalha contra o câncer

Carlos Alberto Parreira, técnico da Seleção Brasileira em 1994, luta contra o linfoma de Hodgkin.

Carlos Alberto Parreira enfrenta batalha contra o câncer
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

O homem que montou a máquina de 70, que regeu a orquestra pragmática de 94, passou oitenta dias num quarto de hospital. Oitenta. É quase o tempo de uma Copa do Mundo inteira, do sorteio dos grupos à final, com sobra para desfiles em carro aberto e promessas de reformulação. O boletim médico fala em inflamação pulmonar, em acompanhamento domiciliar. Palavras secas, técnicas, que não dão conta da dimensão de Carlos Alberto Parreira. Aos 83 anos, ele segue a mesma cartilha que impôs a seus times: defender-se com rigor, para ter direito ao próximo lance.

Professor de educação física, cria do Exército, Parreira nunca foi um homem de arroubos. Sua biografia é uma tese sobre método. Foi ele o preparador físico que afinou a Seleção de Pelé, Gérson e Tostão, um esquadrão que parecia feito de improviso e graça, mas que corria sob sua ciência. Vinte e quatro anos depois, sentou-se no banco para dar ao Brasil o tetra. E o fez à sua imagem: um time que abdicava do brilho fácil pelo resultado inescapável. Na arquibancada, muitos torciam o nariz. Queriam a sinfonia, e ele entregou a partitura. O futebol, para ele, não é um poema, é um problema a ser resolvido. E ele o resolveu.

A notícia de sua alta chega enquanto o mundo da bola gira em outro eixo, nesta Copa de 2026 que mal começou a escrever suas histórias. É inevitável o contraste. Parreira representa um futebol que se pensava em ciclos de quatro anos, que se construía com paciência de artesão. Um mundo onde o técnico era, antes de tudo, um gestor de homens e dramas, não de algoritmos. Comandou o Brasil em 86, 2006, foi coordenador em 2014. Viu o jogo mudar de pele, de ritmo, de sotaque. Viu o campo virar planilha.

Claro, há quem veja apenas a teimosia em suas escalações ou a frieza de suas análises. É uma leitura possível, talvez até justa em alguns recortes. Mas ignora o fio condutor de uma vida inteira: a obsessão pelo controle, pela ordem, num esporte que vive do caos.

Agora, a batalha é outra. Não há adversário a estudar em vídeo, nem esquema tático a desenhar na prancheta. Há o próprio corpo, o tempo que se esvai. A alta de Carlos Alberto Parreira não é o apito final de uma conquista, como a de 94. É, talvez, o início da prorrogação mais difícil de sua vida. Uma que ele joga em casa, longe dos holofotes, mas com a mesma disciplina que o levou do preparo físico no México à glória nos Estados Unidos.

Que futebol reside na memória de um homem que viveu tantas versões do jogo?

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Parreira recebe alta após 80 dias internado no Rio

Fonte: Agência Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.