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Chocolate no Brasil está pior

Consumo Foto: Tetiana Bykovets / Unsplash A Páscoa de 2026 marca um ponto de inflexão no mercado brasileiro de chocolate: pela primeira vez, o preço...

Banca de Jornal — Consumo
Ovos de chocolate artesanais
Foto: Tetiana Bykovets / Unsplash

A Páscoa de 2026 marca um ponto de inflexão no mercado brasileiro de chocolate: pela primeira vez, o preço médio do ovo de Páscoa industrializado ultrapassou R$ 80 — e a qualidade do produto caiu junto. Mas como saber se o que está na prateleira é chocolate de verdade ou uma imitação legalizada?

O que mudou

O preço do cacau atingiu US$ 11.200 por tonelada na bolsa de Nova York em março de 2026, o nível mais alto em 47 anos. A alta de 180% em dois anos é resultado de uma crise perfeita: seca na Costa do Marfim (maior produtor mundial), doença fúngica em Gana (segundo maior) e aumento de demanda na Ásia.

Para manter margens de lucro, fabricantes reduziram o teor de cacau em seus produtos e aumentaram o uso de gorduras vegetais (óleo de palma, gordura de coco), açúcar e lecitina de soja. O resultado: o que o consumidor compra como "chocolate" muitas vezes é, tecnicamente, uma "cobertura sabor chocolate".

Como identificar chocolate de verdade

A legislação brasileira (RDC 264/2005 da Anvisa) exige que o produto contenha no mínimo 25% de sólidos de cacau para ser chamado de "chocolate". Abaixo disso, o fabricante é obrigado a usar termos como "cobertura de chocolate" ou "produto achocolatado". Na prática, porém, o rótulo nem sempre é claro.

Dicas para o consumidor:

1. Leia os ingredientes na ordem. Se "açúcar" aparece antes de "massa de cacau" ou "cacau em pó", o produto tem mais açúcar que cacau. Chocolate de qualidade lista cacau como primeiro ingrediente.

2. Procure o teor de cacau. Chocolates premium informam a porcentagem (ex: 55%, 70%). Se não há informação, desconfie — provavelmente o teor é o mínimo legal (25%).

3. Evite "gordura vegetal hidrogenada". Chocolates de verdade usam manteiga de cacau. A presença de gordura vegetal indica que o fabricante substituiu o ingrediente mais caro pelo mais barato.

4. Teste do estalo. Chocolate de boa qualidade, quando partido, faz um estalo seco. Se dobra ou esfarela, o teor de cacau é baixo.

"O brasileiro paga cada vez mais por um produto cada vez pior. A Páscoa virou um exercício de marketing — não de chocolateria." — Diego Badaró, chocolatier baiano premiado internacionalmente

O mercado artesanal como alternativa

Enquanto as grandes marcas diluem seus produtos, o mercado de chocolate artesanal bean-to-bar (da amêndoa à barra) cresceu 35% no Brasil em 2025, segundo a Associação Bean to Bar Brasil. Marcas como Dengo, Baianí, Luisa Abram e a baiana Mendoá oferecem barras com 60% a 80% de cacau por preços que, proporcionalmente, são mais competitivos que os ovos industrializados.

Um cálculo simples: uma barra artesanal de 80g com 70% de cacau custa entre R$ 25 e R$ 35. Um ovo industrializado de 250g com 25% de cacau custa R$ 80. O custo por grama de cacau real é menor no artesanal.

O cacau brasileiro

O Brasil, que já foi o maior produtor mundial de cacau, hoje é o sétimo — mas é o terceiro em qualidade. O cacau do sul da Bahia e da Amazônia paraense é reconhecido internacionalmente por notas frutadas e florais que cacaus africanos não possuem. A ironia: boa parte do cacau fino brasileiro é exportado para chocolatiers europeus, enquanto o consumidor brasileiro come produto feito com cacau africano de menor qualidade, importado pela indústria.

Redação Banca de Jornal · Xaplin