\\\\n\\\\n\\\\n\\\\n\\\\n\\\\n\\\\n\\n\n

O olho que ve: por que a fotografia de Sebastiao Salgado e jornalismo

FOTOGRAFIA por Andre Cavalcanti Ha uma fotografia de Sebastiao Salgado que eu nao consigo esquecer.

FOTOGRAFIA

por Andre Cavalcanti

Ha uma fotografia de Sebastiao Salgado que eu nao consigo esquecer. Nao e a mais famosa. Nao e a da Serra Pelada, nem a dos trabalhadores no Kuwait. E uma que quase ninguem conhece: um homem de costas, caminhando numa estrada de terra, no sertao da Bahia. So isso.

Nao se ve o rosto. Nao se sabe o nome. Nao se sabe para onde vai. Mas a luz — aquela luz do fim de tarde no Nordeste, que transforma poeira em ouro e miseria em epopeia — conta uma historia inteira. A historia de todo mundo que ja caminhou sem saber se chegaria.

Salgado nao fotografa pessoas. Fotografa condicoes humanas. Cada imagem dele e uma reportagem comprimida em um unico frame. Nao precisa de legenda, nao precisa de texto, nao precisa de contexto. A imagem se basta — e isso e o que separa fotografia de foto.

A linhagem

Salgado pertence a uma linhagem de fotografos que entenderam que a câmera e um instrumento jornalistico tao poderoso quanto a caneta. Pierre Verger fez isso com a Bahia e o candomble — suas fotos em preto e branco sao documentos antropologicos que nenhum texto substituiria. Man Ray fez com o surrealismo — cada imagem uma tese sobre o inconsciente. Henri Cartier-Bresson inventou o "momento decisivo" — a ideia de que existe um instante perfeito em que a realidade se organiza em composicao.

No Brasil, alem de Salgado e Verger, temos Mario Cravo Neto (o corpo negro como escultura), Claudia Andujar (os Yanomami como poucos os viram), German Lorca (Sao Paulo dos anos 50 em geometria perfeita).

A Xaplin e a imagem

Uma editora que se leva a serio nao pode ignorar a fotografia. A Xaplin abre, a partir desta edicao, um espaco permanente para a imagem como forma de jornalismo. Nao decoracao — jornalismo. Cada foto publicada aqui tera a mesma exigencia editorial de um texto: precisao, beleza, necessidade.

Andre Cavalcanti e colunista de Cultura e Arte na Intermezzo, Xaplin.